tudo vira texto na minha cabeça...

algumas coisas são publicáveis, outras não.

22 Fevereiro 2012

academia versus parque ibirapuera...

... parque Ibirapuera ganhou, de dez a, digamos, dois. Não vou dizer de dez a zero porque não seria justo. Tentei, juro que tentei por dois lindos anos de sacrifício, mas no final de 2011 decidi fazer o que é melhor para mim. Pergunto ao médico qual o exercício ideal e ele me diz que o exercício ideal é aquele que você faz. Valeu! Pergunto a mesma coisa ao personal que nos acompanha no parque e ele me diz que o exercício ideal é aquele que eu mais gostar. Pronto. Andar no parque é meu exercício agora. Foi durante uns anos, agora é de novo. Estou empenhada, participo do grupo Pare a Dor, faço aquecimento antes e depois, caminho naquela belezura, encho os olhos com a natureza  e volto para casa feliz, cheia de energia. A esteira, os pesos e aparelhos nunca me deram essa felicidade. A professora de alongamento que não sabe o que é música instrumental e só fica se olhando no espelho não me tortura mais com sua incompetência. Pronto. Falei.

23 Janeiro 2012

Assuntos

Perco tanto tempo pensando o que vale a pena ser escrito e, de repente, o assunto é sempre o mesmo  - amor. E desamor. Então eu digo para alguém que tudo passa, as coisas boas e as não tão boas. Tudo passa. Dói muito, mas uma hora a dor se vai. Fica a apatia, a desesperança e elas também se vão. E a gente diz que nunca mais. E começa tudo de novo. Um documentário sobre a evolução da sexualidade, uma teoria de que quando homem e mulher começaram a copular de frente um para o outro, olho no olho, os problemas emocionais começaram. Foi há muito tempo e está tudo igual. Pior.
Maria gosta de João que diz não está num momento muito bom para relacionamento sério. Na verdade João está mesmo a fim de Patrícia que se apaixonou por Antonio que acha que é gay mas não assume que gosta de Pedro que casou por interesse com Andréa que dá para Paulo e para Márcia e que prefere não se apegar a ninguém. Tereza quer casar com José que já foi casado e não quer mais e acabou de engravidar uma menina no banheiro da balada. A mãe de Mario sai com o melhor amigo dele que mente dizendo que come a irmã, e come mesmo. As duas. O pai só trabalha, não gosta de ninguém mas paga uma fortuna a uma garota de programa que se apaixonou por outro cliente na despedida de solteiro e foi correspondida mas a noiva nunca ficou sabendo porque dá para o amigo de infância cuja mulher não gosta de sexo mas assiste filme pornô para ver o cara que ela conhece da academia onde todo mundo se mata para ter um corpo lindo e ser desejado e amado...

10 Janeiro 2012

Então,

    tirei férias. Semaninha entre Natal e Ano Novo + 6 dias em Paraty, que eu continuo achando que é só para mim! Adoro, curti tudo, principalmente os bons amigos. Voltar é difícil, mas faz parte. Vamo que vamo...

andei por ai...
fiquei nessa rua - Rua do Comércio 31

29 Dezembro 2011

Minhas memórias

Minhas memórias não são confiáveis. Quando cito nomes, eles são verdadeiros, quando descrevo personagens, eles são reais, existiram um dia,  porém, os fatos relatados podem ser apenas embustes da lembrança, cenas que se modificam a cada acesso. Poderia dizer que minha memória se parece com uma cômoda gigante quadrimensional, com gavetas que eu posso abrir, vasculhar para encontrar informações que preciso. Nelas, quando procuro o que eu quero encontro o que não quero. São armadilhas, tem laterais e fundos falsos que se abrem aleatoriamente, misturam  o que já estava separado com o que eu não quero saber. Assim são minhas  lembranças: pura ficção. 
Minha ficção, entretanto, fala mais de mim do que minhas memórias: a dentadura de meu pai escapando da boca ao me dar um beijo de boa noite, o corset de renda, cheio de ganchos nas costas que minha mãe usava em dias de festa, o cheiro da cama deles e o rádio ligado  de manhã. A bandeja na cama e o barulho do meu pai tomando café pelando, a morte de minha avó Dina, o casamento do meu padrinho, as missas aos domingos. 
Minhas tias e tios que eram velhos e tinham sotaques, contavam casos, discutiam. Às vezes tinham paciência comigo, às vezes eu sabia que estava atrapalhando e ficava emburrada no canto. Da rejeição ao amor extremo, assim cresci no meio de adultos quase normais, estranhos às vezes, fascinantes sempre. Entre salas de visitas e quintais, festas e funerais, fui catando conchinhas de relatos, pescando nesgas de sentimentos e tentando entender quem eram meus pais, os pais deles e os pais dos pais deles.
Quero saber quem sou eu no meio dessa avenida por onde tenho desfilado com certa galhardia? Além do DNA, o que me fez ser quem eu sou? 


14 Dezembro 2011

Ballade

alento no fim de um dia pesado
abraço
cigarro, whiskey, a brisa na noite de verão
banho morno
água no rosto, janela aberta
roupa velha de algodão





quando eu morrer
me embalem com Ballade
quero quem me quis
ouvindo comigo
quero que saibam que fui feliz

29 Novembro 2011

Carta de Solange Arruda recebida em 29/11/11

" Passei a tarde no parque lendo
Um traço, Um Ponto,  Um Poema, Um Conto, de Sandra Schamas, até o fim.
Gostei dele ao abri-lo.
Não era cheio de letrinhas espremidas.
Tinha vazios, desenhos.
Dava vontade de ler.
Não senti preguiça.
Chorei.
Chorei muito.
De emoção.
De saudades da minha vida, tão intensa.
Dos meus casamentos bem sucedidos, mas que se acabaram.
Depois sorri.
Tomei um café e voltei para casa.
Inspirada.
A chuva caiu.
Uma boa chuva de verão.
Amei!"

Meu livro tão singelo, que para alguns nem é um livro, para outros poderia ter sido feito por qualquer um! Sim, claro, poderia ter sido feito por qualquer um, só que foi feito por mim. E publicado. E exposto à críticas. E tudo mais.  Meu livro sincero emocionou Solange. Só por isso já valeu !

Obrigada So1.

25 Novembro 2011

Cena de crime

A casa está vazia e escura. Na sala, vê-se o contorno do sofá e os quadros na parede parecem borrões. As cortinas pesadas abafam o som que vem da rua. O corpo, que horas antes sonambulava pela casa, agora se esvai em sangue.

A casa teve muitos donos, tinha fama de assombrada e agourenta. A poça de sangue ao lado do morto confirma a sina. Amanhece, chove, anoitece, tudo permanece intacto. No segundo amanhecer o vizinho se preocupa, toma uma atitude e quase arrebenta a campainha de tanto tocar. Pula o portão, dá a volta na casa, pé ante pé, receoso. Descobre que a porta da frente não está trancada, entra. Quando vê o corpo do amigo em início de decomposição para, em choque e passa a fazer parte do cenário estático. Alguém atira o jornal na varanda, o pobre vizinho se dá conta, tira o celular do bolso, liga para a polícia, enquanto contorna o cadáver e tenta explicar o que vê. Percebe o buraco na testa e corre vomitar no banheiro.

Vem a polícia, o resgate, a perícia, o fotógrafo, o delegado, o rabecão do IML entra e estaciona no corredor lateral. Os funcionários abrem a porta de traz do veículo, retiram o gavetão galvanizado, entram com ele na sala, depositam no chão. O homem era corpulento, tiveram dificuldade de erguê-lo enrijecido e colocá-lo no caixão.

Fica o tapete empregnado de sangue e o cheiro da morte se espalha.

O vizinho, ainda chocado, vai para casa e conta para a mulher. Mais tarde, o casal assiste ao noticiário quando o telefone toca. Era a filha pedindo dinheiro emprestado. Voltam às notícias, o telefone novamente, dessa vez o celular. Engano.

A sombra sinistra da casa ao lado se espalha, eles ficam com medo. Ouvem o portão de ferro bater, espiam pela janela. O vento apenas varre as folhas.

Amanhece, chove, anoitece, tudo permanece intacto. Mais uma casa vazia e escura. Na sala, vê-se o contorno do sofá e dois corpos se esvaem em sangue.