22 maio 2018

A NOVA FACE DA VELHA SOLIDÃO

Já estou nas alturas. Sem preocupações nem cobranças, apenas aproveito o tempo em minha companhia. Tiro um cochilo e acordo com o rosto no vidro. Vejo pela janela o solo quadriculado, lembrando uma colcha de retalhos de veludo cotelê, com todos os tons de verde, marrom e ocre. Plantações.
A cidade na linha do horizonte como se fosse uma maquete morta, velha e empoeirada, arreganha arranha-céus  sem vida, sem cor.  

Divago na descrição do cenário para tentar me entender. Cochilo novamente.

Agora vejo as montanhas, a neve branca  nos cumes, como bolos de chocolate amargo polvilhados com açúcar de confeiteiro. Nas montanhas, vejo uma face. É a nova face da velha solidão. Conheço o medo de estar só, já senti o vácuo de estar entre pessoas que se tornaram estranhas, sinto o vazio dos que se foram  e a solidão das  decisões. 

Sobrevoando as montanhas do Colorado procuro gravar o momento, esta nova face que me assusta e atrai. É bela, é a solidão bem vinda que confirma que sou só, porém faço parte deste grande todo, onde os detalhes desaparecem  nas nuvens. 

Quanto tempo eu perdi. Agora simplesmente sou.

Neste momento, a paisagem é lunar. As nuvens de carneirinho se confundem com as montanhas cobertas de neve. Não me lembro de ter visto nada parecido. Flocos de algodão doce e açúcar de confeiteiro.

Sou meu pai e minha mãe, meu irmão e minha irmã, meu marido e minha esposa.
Eu sou. 

Da janela, vejo apenas fumaça e luz. Paz  é o deleite de estar só. Sinto cada parte do meu corpo:  mãos ressecadas, cabelo despenteado, narinas dilatadas pelo ar pressurizado, mão e braço adormecidos, pernas inchadas e o coração batendo. 

Sinto-me só, deliciosamente só.

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