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11 abril 2014

Chaveco

Seis da tarde, pego o ônibus na Paulista para ir à aula. Sento logo no primeiro banco. Atrás de mim um senhor bigodudo e todo conversador. Próximo ponto. Entra uma senhora magrinha, de jeans e blusinha rosa, carteira debaixo do braço, muitas pulseiras e aneis. Maquiagem carregada, cabelo loiro preso com fivelas coloridas. Pela mão percebo que era homem, quando pede licença para sentar ao lado do senhor falante,  a voz confirma minha suspeita.

Os dois começam a conversar e falam alto: ele todo cavalheiro, ela fazendo charme, diz que adora homem de bigode, me cutuca no ombro e pergunta se eu também gosto... Respondo, rindo,  que sim. A essa altura o motorista resolve interferir e diz que homem tem que ser macho. O cobrador dá risada.

O senhor pergunta se ela sempre toma o ônibus naquele horário, diz que é aposentado como motorista, mas trabalha por ali. Ela diz que sim, e o chaveco continua... Maior clima. Quando o assunto está ficando quente ele tem que descer. Despedem-se, ele joga um beijo, ela suspira...

10 abril 2014

Esse mini conto é um lixo!

Maço de cigarros, pela metade, todo retorcido. Embalagem de pizza grande, dois pratos, dois copos, descartáveis, vários pepeis de bom-bom sonho de valsa, uma garrafa de vinho tinto. Filtro de café, casca de banana, copinho de iogurte.

Caixa de teste de gravidez, muitos lenços de papel, fotos e bilhetes picados, latinhas de cerveja, um diário com as folhas arrancadas, uma camiseta velha, um par de havaianas número 44.



04 dezembro 2013

Quer ver a menina?

Ela é perfeita.

- Quero dormir, tire ela daqui! Não quero ver ninguém... - respondeu a mãe com voz pastosa por causa do clorofórmio.

Nasceu na segunda-feira às 7:30 da manhã pesando pouco mais de um quilo e meio. Custou a chorar. 

Quando a enfermeira trouxe a criança no quarto, toda enrolada em flanelas, só se via um tufo de cabelo preto. O pai a recebeu de braços abertos, cantarolou e dançou com a menina no colo. Depois, colocou-a na cama e a despiu. Encantado com aquela criaturinha arroxeada, examinou os dedinhos de pé, da mão e a vestiu novamente com habilidade. Sacudiu a mãe para que visse a criança.

Foram para a maternidade no domingo à tarde. A mãe, nervosa, sentia-se gorda de tanta cerveja preta e canjica; andava mal por causa da barriga e odiava arrastar os chinelos sem salto. Que pelo menos fosse um menino, para compensar tanto desconforto e os quinze anos sem filhos. O pai estava eufórico, depois de 40 anos bem vividos. Com cuidado, a acomodou no carro e a levou para a maternidade do Instituto dos Bancários.

Muito reservada, a mãe estava contrariada em se expor para as enfermeiras nos preparativos do parto. A bolsa rompeu, ela fez força e o bebê entrou e virou. O médico, que auscultava os batimentos dela e da criança, percebeu que havia risco para ambas. Decidiu tirar o bebê a fórceps altos.

Achando que o parto já fosse martírio suficiente, a mãe não fazia ideia do que seria amamentar: o peito sangrava e vertia leite a menina berrava, a boca era pequena e a fome desesperadora. A solução foi buscar leite de ama. Durante um ano o casal cumpriu esse ritual indo, todos os dias, buscar as garrafinhas de leite.

Do hall da maternidade, o pai deu vários telefonemas. Depois foi registrara filha no cartório e aos jornais colocar um anúncio no setor de nascimentos. A irmã da mãe veio ajudar e disfarçou a decepção; como os outros parentes, esperava um menino grande, forte, loiro e de olhos azuis. Tentou animar a irmã dizendo que o dia estava lindo, que a criança era saudável, melhor que fosse mulher, pois seria companheira. No dia de ir para casa a mãe estava pálida, com medo de enfrentar a responsabilidade. Além do marido e dos pais doentes, agora tinha um bebê prematuro para cuidar.

Inexperiente, tentava parecer forte e segura. Quando cometia um erro, fumava um cigarro atrás do outro, não dormia de remorso. Um dia, um acidente: ao sair da Santa Casa e entrar no carro derrubou a cesta com as mamadeiras. Tremia ao ver o leite da pobre ama escorrendo na calçada. As orelhas de abano da menina a incomodavam. Achou que colocando esparadrapo poderia resolver; depois de uns dias, na hora de tirar, a pele veio junto, mas as orelhas ficaram no lugar. As calças plásticas, novidade pós-guerra, cozinhavam a pele fina; tudo difícil, a menina não queria comer, quando comia, engasgava. Era um ser delicado, mas vingou.

A preocupação maior era tornar aquele ser mínimo, que dependia totalmente dela, uma pessoa educada, independente e responsável. A vida era muito dura, mas sua filha seria forte, mais forte do que ela se esforçava ser.

A menina andou cedo, falou cedo e logo tirou as fraldas. Alegrava a casa, entendia tudo que sua avó lhe falava em italiano, desafiava as ordens da mãe e esperava o pai no fim do dia. Era uma menininha pequena no meio de adultos e com dois anos foi para o que seria hoje uma escolinha maternal, conviver com outras crianças e sair do ambiente pesado de casa.


O pai sentiu a responsabilidade, não queria que sua menina crescesse vendo os agiotas na porta a cobrar dívidas de jogo. Dedicou-se ao seu trabalho no banco, deixou de jogar e abriu uma camisaria como segunda fonte de renda. A mãe o apoiava em tudo, eram parceiros, amantes e ...pais. Bons pais.

08 agosto 2013

Facebook

Você atualizou sua foto de perfil e eu fui avisada. Não queria. Mas vi você tão de perto, com tantos detalhes, que as lágrimas ficaram enchendo a parte de traz do meu globo ocular enquanto eu sentia um lento soco no estômago. Seus olhos cor de. Cor de quê? Sei lá. Sei que estavam olhando para mim e eu até ajeitei o cabelo, passei os dedos na sobrancelha e cliquei no canto da tela para sair da sua mira. O soco foi igual àquele que eu levei quando te vi pela primeira vez e perdi o rumo, tropecei e ri feito boba.

Por que você atualizou a sua foto de perfil? Para mostrar que está bem? Eu também estou. O que me aborrece é uma coisa que não tem nome, um desejo de te ligar e dizer venha aqui agora, eu quero, eu preciso ou vá para o inferno, me deixa em paz. Ver você assim tão de perto me fez beijar a tela fria bem em cima da sua boca, passar a mão no seu cabelo e me sentir ridícula.

Um enternecimento frouxo, um luto brando, um buraco. Vou ligar o skype.

06 março 2013

Satisfaction

Ela revirou uma gaveta, pegou fósforos e um saquinho plástico. Ligou a vitrola portátil e pôs um LP de vinil importado: Rolling Stones. Depois acendeu um incenso e as velas que decoravam a cômoda. Atirou-se na cama, ajeitou as almofadas, acendeu o baseado com toda a calma do mundo e comungou-o comigo, até o finzinho. Roçou sua perna na minha coxa, subiu. Logo estávamos entregues ao desejo desatinado, o que não me impediu de olhar bem dentro dos seus olhos enquanto a beijava. I can't get no satisfaction I can't get no satisfaction 'Cause I try and I try and I try and I try I can't get no, I can't get no…

20 fevereiro 2013

Hora do rush...


Trânsito infernal, tudo parado e o motor do carro dá seu último suspiro bem no meio do viaduto. Buzinas não me estressam porque não posso fazer nada. Chove torrencialmente não vou sair para pedir ajuda para não estragar meu sapato novo de R$600,00. Desligo o rádio: A Voz do Brasil agora, não! Aparece um guarda envolto em plástico, bate no vidro e me manda ir para o acostamento. Desligo o motor, dou a chave na mão dele e me arrasto para o banco do passageiro. É claro que ele não pega, reclama e gesticula mandando os outros carros desviarem. O congestionamento começa a diluir. Um bom samaritano para no acostamento e vem ajudar, os dois encostam meu carro, eu agradeço. Ligo para umas quatro ou cinco pessoas pedindo ajuda, ninguém pode. Meus filhos me chamam no viva voz perguntando se podem fazer pipoca – estão com fome. As luzes da rua acendem e o guincho não chega. Já fumei meio maço de cigarros, arrumei a bolsa, lixei as unhas, falei com minha mãe. As crianças agora querem saber se podem pedir pizza, ouço a televisão à toda e a trilha sonora da novela Salve Jorge!

15 fevereiro 2013

Luto



Velório digno, caixão com alças douradas, muitas flores abafando melancolias. Não vejo mais meu irmão, vejo um boneco de cera bem vestido e descorado. E agora? Como vamos fazer? – pergunto em pensamento. – Agora, nada. Não é mais problema meu – responde o fantasma sobrepairando o corpo. Pescávamos girinos no riachinho, fazíamos pipa com bambu, jornal e cola de farinha. Inventamos um cineminha com tiras de gibi, ouvimos Beatles e Rolling Stones, trabalhamos juntos com a mesma afinidade dos tempos de criança. Semana passada, fui lhe fazer companhia: cantamos. Sabíamos que era uma despedida, eu quis falar, você não deixou. Estou saindo da empresa, sem você lá não faz sentido. E agora? Agora nada. A vida continua desfalcada.

24 outubro 2012

Textos inspirados em outros textos - 5 - Kafka

Acendeu um cigarro, bebericou um 12 anos black label on the rocks, aspirou uma carreira inteira de uma vez. Soltou um gemido de prazer. Mais um gole, mais uma tragada no cigarro, fumaça desenhando formas no ar. Fazia tempo. Nunca se considerou viciado em nada, mas era. Gostava, afinal a vida já era uma merda frita e, sem anestesia, se tornava insuportável. Relaxou. Pensou na viagem para Minas, nos móveis rústicos que viu, nos tótens que quase comprou. Achou bacana ter um troféu daqueles no meio da sala, para mudar um pouco, sei lá. Depois ficou com medo. Imaginou se acordasse no meio da noite para ir no banheiro e desse de cara com aquelas carrancas. Viu a sala cheia de figuras escuras, fantasmas sombrios e ameaçadores. Bad trip. Droga. Ainda achou que ficaria numa boa. Sentiu coceira no dedo indicador da mão direita, coçou, até se ferir. Ficou um buraquinho rosado, como uma picada de borrachudo. Olhou de perto. Uma coisa gelatinosa e nojenta começou a sair. Uma lesma acinzentada foi se transformando numa cobrinha esperta que logo se enroscou na sua mão. Ia dando voltas, subindo pelo braço, pescoço. Outro gole. Agora sim... Acordou nú, com um homem deitado aos seu lado. Também nú.

textos inspirados em outros textos - 4 - Arturo Bandini



Pergunte ao pó na estrada! Pergunte às árvores solitárias onde o Mojave começa. Pergunte a elas sobre Camilla Lopez, e elas sussurrarão seu nome. 


 Jonh Fante



 Está frio. A chuva não consegue molhar e logo escurece. Não quero ir para casa, abrir a porta, acender a luz e ver que você não veio. Nem virá. Penso - é melhor assim -  mas é mentira. Pensava que a solidão  era horrível - também é mentira - . Ela me faz bem. Um fim de tarde cinzento, uma cidade de cimento, uma rotina sem sentido. Que tédio. Na folha em branco enfiada no rolo da velha máquina de escrever algumas palavras apenas.



21 outubro 2012

Textos inspirados em outros textos - 3 - Adriana Falcão


Ali, deitada, divagou:
se fosse eu,
Teria escolhido lírios.
 Morrera de repente. Fora um ataque fulminante do coração, diziam os parentes chocados. Não choravam nem rezavam, apenas velavam o corpo da defunta, em total silêncio.No caixão enfeitado com rosas cor de rosa, cabelos cacheados e abundantes emolduravam o rosto. A pele transparente na testa, mal cobria as veias. Os lábios ressecados e entreabertos davam a impressão de que a bela mulher sorria, como se não soubesse que tinha morrido. As mãos sobre o peito seguravam um terço.
 No meio da manhã, chegou o marido segurando a filhinha de cinco anos pelas mãos
– Pobrezinha! Não deviam ter trazido... Pode ficar traumatizada.
– Elas sempre ficam traumatizadas. Eu também fiquei, e já era moça feita! – disse a tia avó, lembrando-se de sua mãe falecida havia mais de quarenta anos.
– Ela quis vir – disse o pai – queria entender o que acontece quando as pessoas morrem. Eu achei melhor ver a mãe e se despedir.
Segurando a menina no colo, o pai tentava explicar o inexplicável – vida e morte. Difícil para ele, mas ela entendeu. Olhava para a mãe com os olhos bem arregalados, se atinha aos detalhes, olhava para as pessoas. Pediu para descer. O pai a colocou no chão e ela saiu correndo em direção ao corredor, entrando, a seguir, na sala ao lado, onde havia outro velório. Ficou parada na entrada, observando e logo voltou para perto do pai.
A hora do enterro se aproximava, as pessoas iam chegando sem saber o que dizer. Abraçavam o pai, faziam um carinho na menina agarrada às pernas dele, chegavam perto do caixão e faziam o sinal da cruz.
Lá fora, um movimento: o carro funerário havia chegado e dois funcionários de roupa caqui entraram com um papel na mão. Pegaram a tampa, que estava encostada na parede, e cobriram o caixão.
–Vão levar a mamãe? Eu nunca mais vou ver ela? Quero ver de novo, quero dar tchau para a mamãe, posso? Me segura no colo papai, quero ver.
O pai a ergueu e a abraçou com força. A menina jogou um beijo e deu adeus com a mãozinha. Enquanto atarraxavam os parafusos ela disse:
– A mamãe me disse que gostava de lírios.

20 outubro 2012

Textos inspirados em outros textos - 2 - Tolstoy


Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes, cada uma o é à sua maneira.- Tolstoi

O pai entrou, jogou a mochila no canto e foi direto tomar uma chuveirada. Ela, que brincava no tapete da sala em frente à televisão, só teve tempo de dizer um oi. Entretida com as panelinhas, nem percebeu que a mãe passou com uma pilha de roupas dobradas. Quando a tevê anunciou a novela das sete, a mãe gritou da cozinha que a comida estava na mesa. Jantaram em silêncio, como de hábito, depois, só o barulho da louça sendo lavada, o revirar das folhas do jornal, os atores murmurando clichês.
No meio da noite a menina tem um acesso de tosse. Ambos correm acudir a filha e notam respingos de sangue no lençol. Embrulham-na em um cobertor e vão direto ao pronto socorro. Na sala de espera, com a criança pálida no colo, ele passa o braço em volta dos ombros da mulher e a beija com carinho. Ela corresponde pondo sua mão sobre a dele, sente um arrepio. Há quanto tempo não se tocavam. Olham-se com carinho. A menina tosse, tosse, uma golfada de sangue tinge a camiseta dele. Pedem ajuda, o médico já vai atender. Um de cada lado da cama, velam a doentinha  desfigurada. Ela será encaminhada para a  UTI, acompanhantes não são permitidos. Levam-na.
Desolados, os pais voltam para casa. Choram, se abraçam e fazem amor como há muito não faziam.

19 outubro 2012

Textos inspirados em outros textos - 1 - Che Guevara


Hay que endurecerse sin perder la ternura jamás. 


“ Você está bem? Está me ouvindo? Eu quero que você saiba que estou aqui, meu bem. As visitas são curtas e só pode entrar uma pessoa de cada vez. As crianças ficaram lá fora. Dei graças a deus. Queria estar sozinha com você, só nós dois. Assim. Vou fazer massagem nos seus pés, está sentindo? Você se mexeu...Olhe para mim, fale comigo...abra os olhos... Se estiver me ouvindo, pisque. Piscou. Que bom, que você não morreu, porque eu preciso 
lhe dizer uma coisa. Piscou de novo? Ótimo! Agora, preste atenção, eu sei que o acidente foi a caminho do motel seu filho da puta. Está tendo um caso com a estagiária, a vagabunda que você teve a coragem de me apresentar. Eu me matando para ser  a esposa perfeita e você? Trepando com aquela zinha todo dia na hora do almoço. Era bom, não é? Eu sei. Mas agora, quem vai foder com sua vida agora sou eu. Mas vou foder tanto que você não vai querer sair dessa cama nunca mais. Vou estourar os cartões de crédito, zerar as contas conjuntas, vender o seu carro – está no meu nome, lembra? Vou inscrever você num site de relacionamentos gay. Vou aparecer lá no seu escritório, preciso bater um papinho com aquele seu chefe careta e contar tudo o que você me contou. Pode piscar á vontade, viu meu bem. Amanhã eu volto para ver você.”

05 junho 2012

Celular

Júlio. Júlio, presta atenção no que eu estou falando. Não dá para ficar com ela, eu já expliquei, não vai dar. Eu ainda preciso dividir o aluguel com alguém, Júlio. Não consigo pagar sozinha, como eu vou ficar com ela? Não. Não dá. Eu sei. Eu sei que você também não pode, mas ela tem que se virar. Sabe a Valéria? Então, elas fizeram umas pulserinhas, tipo chique, entende, super bonitas. Daí eu falei por que você não vai vender nas lojas? Sabe o que ela disse? Eu não tenho jeito para vender. O Alceu, sabe o Alceu? Está precisando de recepcionista no consultório, queria uma pessoa mais velha, mais responsável e eu pensei nela. Falei, vai lá mãe, pelo menos você não fica sem fazer nada o dia inteiro, você ganha, ajuda ele, conhece outras pessoas. Ela disse que não tinha jeito, de novo. Será possível que ela não tem jeito para nada? Pô! Não dá. Não Júlio. Claro que não! Espera aí, vamos combinar, você também não quer. Fala a verdade! Fica com ela você, comigo não dá, eu não tenho paciência. Trabalho pra caramba.Você quer que eu decida tudo? Pensa. Estou tentando. Eu falei para ela ficar com a Leninha, assim ela ajuda quando o nenê nascer. Sabe o que ela falou? Que não gosta da Leninha, só atura porque é mulher do Pedro. Você acha? Não estou fazendo fofoca, Júlio, estou só comentando. eu ia lá saber que ela não gosta da leninha? Está bem. Ok. Entendi. Mas você não vai me ajudar com nada?Estou falando Júlio, se eu bancar o aluguel sozinha eu fico sem comer! Não é exagero, estou fando sério. Sei. Entendi. Bom, se você e o Pedro me ajudarem, a gente divide o aluguel em três. Ai, dá. Mas, Júlio, não é justo. Ela quer que a gente pegue ela pela mão. Você se lembra dela pegar a gente pela mão? Quando que ela ajudou a gente, hein? Quando? Eu não me lembro. Entendi. Sei. Tudo bem.Para variar sobrou para mim. Beijo. Tchau.

04 junho 2012

Ônibus politicamente incorreto

Hoje eu não vou abrir minha boca. Se alguma velha me perguntar se eu subo a Brigadeiro Luiz Antonio vou ficar mudo. Se algum aleijado me agradecer por parar fora do ponto vou ignorar e se algum cego pedir para vender bala não vou deixar. Vai ser assim.

Nossa, quanta mulher feia no ponto! Olha aquela japa ali! Tem perna torta e parece que levou uma panelada na cara. E a gorda? Peitão está bom! E a neguinha de chapinha, coitada. Dois viados de cabelo pintado... mereciam uma surra. Hoje está difícil. Dez horas dentro desse ônibus. Que cheiro de sovaqueira... pelamordedeus!

Quase...nossa, foi por pouco. Que louca! Só podia ser mulher, mesmo. Meteu o carrão na minha frente numa boa, falando no celular. Relógio, bolsa, óculos, tudo do camelô da 25 de Março. Conheço o tipo.
- Vai lavar roupa dona Maria! Lugar de mulher é no tanque! - dá vontade de meter o carro em cima. Rico é tudo igual, estão se lixando para os outros. O carro dela é caro, mas o meu é grande... já se viu.

Só entra estrupício. Feia, feia, gorda, baranga, cara de empregada, cara de vagabunda. Não vou mais nem olhar para o lado, só pra frente. Estou no horário, nenhum congestionamento ainda, estou na minha.
- E aí, negão! Beleza? Estou nessa linha agora. É. Vamo indo, né? Vai com deus... - Com o colega eu falo, só não falo com esse povo. Bando de pobre feio, fedido.

19 março 2012

Escrevivendo Canções


Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar...





Naquela noite, naquela festa era tanto amor, todo tipo de amor. A turma que não se desfez, nem com as separações, nem com as mortes, foi mudando apenas, se adequando aos tempos, aos filhos crescendo à sociedade exigente e frenética. E você hein? Eu sei que você se lembra que sentia o que eu sentia, nossos olhos nunca mentiram e naquela noite, naquela festa, era tanto amor que só de lembrar passo do estado físico para o estado gasoso e acredito em eternidade.
A cada ausência sua eu chorei, sofri esperando ficar ao lado seu por toda minha vida, morri um pouco quando você fez de conta que me esqueceu, perdeu meu telefone e se escondeu sabe deus onde. Mas sou da turma, continuo em mutação. Consegui abrir os braços e soltar você que agora está onde escolheu estar. Naquela noite, naquela festa eu sabia que ia te amar por toda minha vida.

25 novembro 2011

Cena de crime

A casa está vazia e escura. Na sala, vê-se o contorno do sofá e os quadros na parede parecem borrões. As cortinas pesadas abafam o som que vem da rua. O corpo, que horas antes sonambulava pela casa, agora se esvai em sangue.

A casa teve muitos donos, tinha fama de assombrada e agourenta. A poça de sangue ao lado do morto confirma a sina. Amanhece, chove, anoitece, tudo permanece intacto. No segundo amanhecer o vizinho se preocupa, toma uma atitude e quase arrebenta a campainha de tanto tocar. Pula o portão, dá a volta na casa, pé ante pé, receoso. Descobre que a porta da frente não está trancada, entra. Quando vê o corpo do amigo em início de decomposição para, em choque e passa a fazer parte do cenário estático. Alguém atira o jornal na varanda, o pobre vizinho se dá conta, tira o celular do bolso, liga para a polícia, enquanto contorna o cadáver e tenta explicar o que vê. Percebe o buraco na testa e corre vomitar no banheiro.

Vem a polícia, o resgate, a perícia, o fotógrafo, o delegado, o rabecão do IML entra e estaciona no corredor lateral. Os funcionários abrem a porta de traz do veículo, retiram o gavetão galvanizado, entram com ele na sala, depositam no chão. O homem era corpulento, tiveram dificuldade de erguê-lo enrijecido e colocá-lo no caixão.

Fica o tapete empregnado de sangue e o cheiro da morte se espalha.

O vizinho, ainda chocado, vai para casa e conta para a mulher. Mais tarde, o casal assiste ao noticiário quando o telefone toca. Era a filha pedindo dinheiro emprestado. Voltam às notícias, o telefone novamente, dessa vez o celular. Engano.

A sombra sinistra da casa ao lado se espalha, eles ficam com medo. Ouvem o portão de ferro bater, espiam pela janela. O vento apenas varre as folhas.

Amanhece, chove, anoitece, tudo permanece intacto. Mais uma casa vazia e escura. Na sala, vê-se o contorno do sofá e dois corpos se esvaem em sangue.

29 outubro 2011

as flores e o mar


Hoje acordei com a lembrança de meu pai, como se uma saudade antiga tivesse sido aplacada, como se eu estivesse cheia dos mimos e afetos da minha infância. O sonho, às vezes, faz isso, busca lá no fundo uma cena do inconsciente e traz à tona sensações.
É uma festa de família, algo importante, muitos convidados, um salão imponente de frente para o mar. Flores frescas, talheres de prata, guardanapos de linho, a responsabilidade toda minha.  Aguardo os convidados que nunca chegam, duas horas de atraso, ou mais. Aflita, vejo que o salão é grande, poucos virão, um desperdício. Vou até a porta ver o que acontece e noto que no salão ao lado há outra festa, de uma ramo da minha família que cresceu demais para se juntar ao da primeira festa. Esse salão fica mais embaixo, tenho que descer uma escada forrada de veludo vermelho, passo entre véus e cortinas leves, encontro meus primos que não vejo há anos e a mãe de todos, a avó e bisavó, irmã de meu pai.
Volto ao primeiro salão e corro abraçar meu pai que chega de terno e todo sorrisos. Vivos, mortos e crianças interagem, há muitos lugares vazios. De repente, as flores desaparecem, só fica o mar. Digo ao meu pai que a irmã dele está numa festa ao lado e vamos juntos para lá. Eles se encontram, se beijam e meu pai confessa que não gosta da sobrinha mais velha. A mesma que em vida ele sempre paparicou... eu adoreva minhas tias, eram velhas e engraçadas...
A festa cuja responsabilidade é minha não dá muito certo, foi muito gasto para pouco proveito. A festa ao lado é menor, mas está mais animada e fico feliz por ter meu pai comigo, como se nunca tivesse saído de perto de mim.
O sonho não tem desfecho, como todos os sonhos meus. Sento na cama, esfrego os olhos e recordo cada detalhe. Não preciso tentar entender, está explicado. As famílias são laboratórios, há brigas, desafetos, ciúmes, rivalidades, mas o sangue é mais grosso que a água. As pessoas se amam e o amor transcende o inconsciente, o sonho, a vida e a morte.

26 setembro 2011

Murciélagos

Gosto de ir à praia em dias cinzentos quando a monotonia dos tons me traz uma paz interior. Observo a paisagem neutra,  sinto a mente esvaziar-se, como se todos os pensamentos fossem escorrendo pelo meu corpo e penetrando na areia úmida e macia. Noto um pequeno barco surgir no meio das ondas e espero que ele se aproxime. Entro na água até onde dá pé e observo o barqueiro que rema como quem sabe o que faz. “Quer vir?”, pergunta ele. Com  dificuldade, subo no barco arfando. “Vamos do outro lado ver a gruta”, explica o moreno com pele de couro. Eu concordo balançando a cabeça e torcendo o cabelo molhado.

Mal se nota a abertura da gruta. Precisamos deitar no barco e esperar uma marola para poder entrar. Depois de algumas tentativas conseguimos. Estou com medo, mas sei que vou gostar.
A pedra grosseira por fora é branca por dentro e a parte da gruta que fica no fundo do mar é aberta permitindo que a luz entre por baixo e reflita o azul da água. Encantada, me sinto dentro de uma imensa água-marinha. Ouço o som da água pingando, olho para cima e vejo alguns morcegos enfileirados, pendurados nos estalactites. Pela primeira vez gosto daquelas criaturas que mais parecem retângulos de veludo presos pelo centro. De algum modo sei que não irão me atacar.

Desço do barco agarrando-me às pedras e peço para o barqueiro esperar. Sinto-me desprotegida , tento percorrer uma espécie de trilha com muito cuidado, estou curiosa. Além do som dos pingos pingando ouço apenas a minha respiração. Busco a escuridão total, mas ela nunca acontece, sempre há uma luz que vem das águas cristalinas como se não houvesse mais nada que pudesse me surpreender. 

O breu acontece, me assusto e paro. Alguém me pergunta quem sou eu e dois olhos imensos encontram os meus. São olhos apenas. Eu não consigo ver nem sentir nenhum corpo, apenas dois olhos, ora azuis, ora verdes, que se confundem com o azul e o verde que vem da luz do fundo do mar.
A voz me diz que são os olhos da morte. mas eu sei que são os olhos do amor. Mergulho no abraço de morte e de amor por tempo indefinido. Preciso voltar.

Agarrada às pedras, percorro a trilha de volta, entro no barco onde o moreno me espera, olho para cima e admiro  os retângulos de veludo.Murciélagos”, sussurram eles, suspendo a respiração para ouvir melhor aquela o mantra sinistro e reconfortante. 

O barqueiro rema com habilidade e logo estamos de volta à praia.