Mostrando postagens com marcador café do zé. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador café do zé. Mostrar todas as postagens

21 fevereiro 2016

Saco cheio



Zé acorda de saco cheio da vida. Não quer nada com nada. Todo dia a mesma rotina besta, levantar, tirar o pano da gaiola, alimentar e dar água aquele pequeno ser aprisionado, tomar, ele próprio, uma chuveirada fria, barbear-se, vestir-se, caminhar até o café. Por quê? Para quê?

Em ritmo lento, prossegue o ritual. Desenrola a porta de ferro, liga a máquina, passa pano no balcão, depois nas mesinhas. A cidade está parada. Ele olha no relógio para ver se não havia se enganado no horário. Não, eram oito horas mesmo. Dá uma varrida na calçada, junta o lixo na pazinha, joga no latão.

Prepara um café e senta-se como se fosse um freguês. Não passa ninguém na rua, que saco! Fica ali um pouco, tamborilando os dedos na mesa, balançando o pé. Resolve então assumir o mau humor. Levanta, lava a xícara que usou, recolhe as mesinhas, baixa a porta de ferro, pendura uma folha de papel com um volto já mal escrito, põe a chave e no bolso e sai andando. Só depois de um tempo é que começa a apreciar o cenário. Percebe os detalhes dos prédios, os desenhos das grades de ferro, a beleza das árvores. Começa a prestar atenção nos rostos das pessoas, um sem fim de dessemelhanças andando depressa.

Zé não havia reparado o quanto as calçadas são esburacadas. Continua sem rumo e se sente outra pessoa. Repara na loja de telefonia, no fruteiro, na banca de jornal, no café... Sentiu o cheiro e parou. Era um lugarzinho fuleiro, parecido com o seu. Por que não? Entrou. Procurou uma mesa e pediu uma média. Era bom ser freguês para variar. O relógio cuco marcou onze horas e Zé reforçou o pedido: uma média, um pão na chapa e um pedaço de bolo. Apreciou ser servido. Sentia-se bem agora. Procurando o banheiro, tentou abrir uma porta meio emperrrada, que aparentemente dava em um beco, atrás do café. Forçou para cima, para baixo, sacudiu, deu um murro acima do trinco. Por fim, bem devagar, com a certeza de que conseguiria, suspendeu o trinco e virou. A porta abriu. Não era o banheiro, mas mesmo assim ele entrou...

09 fevereiro 2016

Banal

Um bando de jovens estudantes se aproxima ruidosamente. Zé detesta esses meninos de 13 ou 14 anos, meio sujos, barulhentos, os pré-adolescentes, aborrecentes. Detesta. Só fazem barulho, ainda não sabem apreciar um bom café, consomem refrigerantes e pisam nas latinhas. Os feromônios efervescentes provocam atitudes um tanto animalescas: urros, pulos desajeitados gargalhadas e gritinhos histéricos. Arrastam as cadeiras, atiram as mochilas no chão, sentam-se de perna aberta, chutam-se e empurram-se de leve. A conversa é desconexa, mas não importa, cada um fala para si mesmo como se o resto do mundo não existisse e os insultos jorram de suas bocas.

Os seres ocupam duas mesas, jogam livros, agasalhos e mochilas, tudo no chão, pedem coca-cola, uma ou duas meninas água mineral. Pão de queijo? Alguém? Não, agora não. Um deles arrota alto provocando mais risos, o outro enfia na boca duas bolas de chiclete e limpa o cuspe que escorre na manga do moleton cinco ou seis números maior que o dele e com as beiradas dos punhos totalmente encardidas.

Ficam ali, cabulando aula e se aquecendo ao fraco sol da manhã.

Uma garota de cabelo cuidadosamente despenteado, graças a provavelmente um pote de gel, usa camisa de flanela amarrada na cintura e regata preta. Quando ela se baixa para amarrar o cadarço da bota de soldado perde o equilíbrio e cai em cima da amiga que está sentada e as duas vão parar no chão. Todos riem muito mais alto do que acham graça e as garotas não conseguem se levantar de tanto rir. Abraçam-se. Um dos garotos estende as duas mãos e puxa as duas para cima com força e elas conseguem se erguer apesar do ataque de riso. Uma delas dá um selinho no rapaz que a ajudou e faz uma cara de criancinha. A outra a imita, provocando. Ele se anima, passa o braço em torno do pescoço delas, uma de cada lado e as beija com vontade. Em seguida as duas se beijam lascivamente.

De repente, a conversa para e as risadas também. Então, começa uma degustação generalizada de bocas e línguas, uma mistura de afeto e erotismo grupal: homem com homem, mulher com mulher, faca sem ponta, galinha sem pé.  Fica um clima, até que alguém diz:
- Bóra galera!


Atiram um bolo de dinheiro amassado em cima da mesa, catam suas coisas e vão embora.

31 janeiro 2016

Mercado Financeiro

Fim de tarde normal no café do Zé. Muitos fregueses faziam hora lá por causa do trânsito. Ás vezes passavam, com pressa, engoliam um cafezinho e iam embora antes do rush, outras vezes ficavam por ali, esperando o movimento dos carros diminuir para depois ir para casa.       

Pensando nisso, Zé achou melhor ter dois tipos de café mais conhecidos no Brasil, assim teria assunto como os clientes, mostraria conhecimento: o arábica, que ele pessoalmente preferia, por ser mais requintado, originário do oriente, cultivado em regiões mais altas e grãos de cor esverdeada; e o robusta, originário da África, sabor típico, baixa acidez e teor mais alto de cafeína. Oferecia também café orgânico e adorava contar que visitou a fazenda e escolheu aquele café porque era um café feliz, crescia solto no meio de outras árvores.

Nos lugares públicos, sempre tem alguém que fala sem parar, muito mais alto que os demais, que chama mais atenção, até pelo timbre de voz ou pela atitude. O homem de terno claro e sapato marrom era assim: não precisava de microfone. Com as pernas espalhadas, apontava a própria têmpora com o indicador e dizia:

- Os caras enlouqueceram. Tão falando que HSBC vai congelar os salários e as novas contratações em 2016, os funcion[ários vão receber e-mail com as medidas a de redução de custos, tudo para aumentar a rentabilidade dos acionistas e está levando adiante planos para conseguir uma economia anual de até 5 billhões de dólares até 2017. Bancos da Europa querem eliminar quase um e cada cinco postos de trabalho e reduzir investimentos em um terço, isso seria uma forma de responder ao fraco crescimento econômico e regulamentações globais mais rígidas. A economia está desacelerando muito e a gente como é que fica? A Dilma, o dólar do jeito que está, essa corrupção descarada, cada dia uma coisa, e lá no banco a coisa está ficando insustentável. Comer sanduíche em frente a três telas de computador... Não dá! Trabalhar dezoito horas por dia virou rotina, cara. O celular não pára de tocar, quanto mais tecnologia mais exigem da gente. Diz que o pessoal da bolsa só falta se comer vivo, trancam os caras no banheiro, se chutam durante o pregão, sacaneam geral. Sabe o que o Medeiros disse? Você lembra dele, né? Meio antigão, tem quatro filhos, a mulher não trabalha... Sabe o que ele falou ontem? Você não vai acreditar. O cara chegou na minha sala babando, falando alto, olho arregalado, logo ele que é tranqüilo, veio contar que cabeças vão rolar. Estava apavorado o coitado. Os caras não querem nem…

- Amore, eu estou sem calcinha – disse a mulher que estava com ele.
-  ...saber. Estava tão vermelho, com as veias saltando da testa que parecia que ia ter um inf.... Quê?
- Hum...hum...Eu estou sem calcinha – repetiu ela remexendo o café.
- Sem nada, só com esse vestidinho. Quer ver?

Abriu a bolsa, tirou de dentro um pedacinho de renda preta e jogou na mesa.

- Ficou louca? Guarda isso já! O que foi que deu em você? Está todo mundo olhando, estamos na rua, sua doida!
- Olhando o quê, fofo? Ninguém sabe. Quis fazer uma surpresinha para você relaxar um pouco. Você anda tão chato...
- Vamos embora. Agora mesmo. Não quero que vejam você assim – disse ele pegando a rendinha e enfiando rapidamente no bolso do paletó.
- Já disse que ninguém sabe. Agora, se eu descruzar a perna assim...
- Pára com isso!
- Eu só queria provocar você, não precisa ficar nervoso, amore. Brincadeirinha...
- Quem disse que eu estou nervoso? Estou louco por você, gata, vem cá!
- Ai! Não me puxa. Deixa que eu levanto sozinha. Onde você quer ir?
- No banheiro, vamos. Você queria provocar não queria? Conseguiu.
- No de homem ou no de mulher? Ai, cuidado, não me aperta seu bruto!
- Qualquer um. Entra aí, vai!

25 janeiro 2016

Depressão

Desanimada, ela abre a janela para ver como está o dia. Nem se lembra que é domingo novamente, mais um detestável domingo de sol e de solidão. Arrastando os pés vai até a cozinha, mecanicamente toma um copo de água, meia dúzia de comprimidos. Pega o jornal na porta, joga em cima da mesinha e liga a tevê. O telefone toca, mas ela não atende, não quer falar com ninguém, não quer ver ninguém. Com os olhos fixos na tela, não presta atenção na veemente pregação do pastor evangélico e nos fiéis que a cada final de frase dizem aleluia! Precisava comer alguma coisa. Olha a geladeira vazia, decide sair para tomar o café da manhã perto de sua casa. Troca de roupa, lava o rosto, escova os dentes, penteia o cabelo de qualquer jeito. Quando se olha no espelho desanima; está branca, com olheiras, parecendo dez anos mais velha. Foda-se. Sabia que ninguém iria olhar para ela, mesmo. Pega o jornal, bate a porta e sai.
O dia estava agradável, caminha até o café do Zé, olha para o céu e puxa a cadeira de uma das mesinhas na calçada. Abre o jornal na página de óbitos, como de costume, passa os olhos por todos os anúncios tentando achar algum nome conhecido.
Pensa no seu próprio funeral. Quer ser cremada, depois de doar o que for aproveitável de sua carcaça. Não haverá velório, mas uma cerimônia simples antes da cremação. No caixão, rosas ou orquídeas, nada de flores fedidas e nem velas artificiais, aquelas de plástico com uma ridícula lampadazinha de luz inconveniente. Se alguém quiser dizer algumas palavras, que sejam verdadeiras e se houver música, que sejam canções alegres. Padre? Nem pensar. Eles nem conhecem o defunto, dizem sempre as mesmas coisas sem sentimento e vêm sempre de paletó surrado e camisa puída. Então, começou a visualizar os detalhes, as pessoas chegando, olhando seu rosto e mãos de cera no caixão. Quem será que iria lhe prestar a última homenagem e chorar a sua morte? E depois? Depois, nada. Ninguém sabe nem nunca voltou para contar. A luz no fim do túnel não seria a projeção dos neurônios se desligando? Ou há um portal que recebe as almas? O barqueiro da morte? Um anjo de asas douradas? Não importa.
O aroma do café fez com que voltasse à vida. Aqueles grãos torrados eram capazes de gerar uma bebida maravilhosa, quente, estimulante, sensual... 
Tomou o primeiro gole de olhos fechados, depois voltou ao obituário no jornal.

18 janeiro 2016

Enchente

Em frente ao café, do outro lado da rua havia um ponto de ônibus bem na porta da oficina de um tapeceiro, coitado. Era um inferno cada vez que ele precisava entrar ou sair com sua caminhonete velha, ora carregada com poltronas sujas, ora com sofás renovados, cobertos com plástico-bolha. Como o ponto não tinha cobertura de alumínio, o sol batia sem piedade e o povo se amontoava quase dentro da oficina, para poder ficar na sombra. Em dia de chuva era pior.

Próximos ao ponto, ficava um vendedor de balas e outras porcarias, uma senhora com bolos, enormes pães de queijo ocos e  várias térmicas de café, aqueles vendedores de chicletes e chocolates que ficam fazendo discurso dentro do ônibus. Boa tarde pessoal. Desculpe atrapalhar sua viagem, pessoal. Um deles, vestido de palhaço. À tarde, churrasquinho de gato com farinha e tudo. A calçada esburacada ficava cheia de lixo, descartáveis, plástico, bitucas, cusparadas, um nojo. Um dia, chamaram um cara para retocar o cimento e o folgado cimentou por cima da sujeira. Na primeira chuva saiu todo o cimento, não adiantou nada.

Zé olhava e pensava nas enchentes que vira no noticiário na noite anterior. Nisso, um bêbado dá sinal para o ônibus. A porta se abre, ele agarra o corrimão, atira a lata de cerveja no meio da rua e sobe. O cobrador aproveita e arremessa um monte de papel picado pela janela.Um passageiro cospe pela janela e um garotinho joga papel de bolacha pela janela seguinte.

A vizinha do tapeceiro resolve lavar o quintal, manda um balde cheio, e a água com sabão escorre pela calçada. As pessoas paradas esperando o ônibus se afastam erguendo um pé de cada vez. Reclamam, mas a vizinha nem liga e esfrega o chão com a vassoura.


Zé olhava e pensava que era melhor ficar lavando xícara o inteiro do que sujar a rua daquele jeito. Gente porca. Depois reclamam das enchentes.

10 janeiro 2016

Cascuda...

… e asquerosa, lá estava ela parada no cano da torneira da pia. Era grande, repugnante, a desgraçada, com antenas duas vezes seu tamanho tateando o cano enferrujado. Suas asas pardas se entreabriam e fechavam em um movimento lento e nojento, parecia que ia voar. Zé pegou a vassoura, escorregou o pé para fora do chinelo, abaixou-se e o empunhou como uma segunda arma de defesa.

E a barata lá, só mexendo as antenas. Zé optou pelo chinelo. Desferiu um golpe certeiro e a bicha caiu de costas na pia. Ficou imóvel por uns segundos, mas depois começou a mexer as pernas tentando se desvirar. Conseguiu! A chinelada não fez efeito e ela saiu lépida entrando atrás do quadrinho do Sagrado Coração de Jesus.

Zé largou a vassoura e foi procurar um inseticida. Derrubou tudo o que estava na prateleira, pegou o aerosol e mirou no quadro, apertando o pino como quem aperta o gatilho de uma arma assassina. O líquido formou uma névoa e depois escorreu pelo quadro.
- Agora eu matei! – disse  ele.

Continuou sua rotina, limpou a sujeira, guardou a bagunça, lavou bem as mãos e disse bom dia a um freguês que acabava de entrar. Cafezinho carioca com espuma de leite, um copo de água sem gelo e um pão de queijo. Pão de queijo não tinha, foi pão de batata. Começaram a conversar sobre o calor, o trânsito, nada de mais. O sujeito era amável e Zé, que estava gostando do papo, serviu a água e em seguida colocou no balcão o café e o pão em um pratinho. O freguês começou a fazer perguntas sobre a coleção de xícaras, Zé se distraiu  e quando bateu o olho no balcão viu a baratona em cima do pão de batata. Ficou sem ação. O freguês, que estava de costas, continuou falando. E agora? Cadê a vassoura? Estava longe. E o chinelo? Era a sua chance. Sorrindo fez uma espécie de reverência, pegou o chinelo e tacou na barata por cima do ombro do freguês. Ela fugiu de novo. Filhadaputa! E agora ele havia ficado mal com o simpático cliente que provavelmente jamais voltaria a café.

E não é que o Zé estava enganado? O cara era biólogo, não estava nem aí com a dita cuja.



03 janeiro 2016

Moleque



Chovia a potes. Era uma daquelas tardes de janeiro quando a chuva, em vez de refrescar, levanta um vapor do cimento quente. O café estava vazio e Zé preenchia várias cartelinhas da loto. O pequeno toldo de lona enchia de água e criava um chuveiro grosso no canto direito da fachada. Ele ficou preocupado, com medo que a armação desabasse. Pegou uma vassoura e cutucou o tecido, eliminando a água pelos lados da cobertura. Pronto. Deveria funcionar por um tempo.
A chuva continuava e o toldo tornava a encher. Quando Zé ia repetir a operação lá estava um moleque debaixo de onde caía mais água. Devia ter uns 10 anos, vestia uma camiseta escura onde se lia em letras grandes University of Miami. Por estar ensopada, quase chegava ao chão e o garoto lá, pulando, de boca aberta, tomando água da chuva.
Zé ficou olhando e riu. Ele mesmo tinha vontade de sair na chuva, chutar poças d’ água e brincar na enxurrada. Mandou o garoto sair duas vezes e na terceira vez o menino respondeu:
- Eu me chamo Denílson e só tô tomando chuva, moço.
- Entra aí, Denilson, sai da chuva – disse Zé complacente.
Pingando e feliz da vida, o garoto aceitou. Tirou a camiseta e torceu para o lado da calçada, depois sacudiu bem e torceu de novo. Espremeu as laterais do shorts de nylon e passou a mão no cabelo molhado.
- Posso ir no banheiro? Só pra lavar a mão.
- Vai lá, mas não faz bagunça, tá?
Saiu do banheiro com cheiro de sabão líquido. Zé achou que ele tomou banho na pia, ficou com dó. Preparou um café com leite bem quente, pão com manteiga e puxou conversa. Denílson estudava na escola pública do bairro, trabalhava no mercadinho fazendo entregas, ajudava a mãe e jogava no timinho da rua. Dava duro, fazia o dever, mas naquele dia resolveu cabular.

Era uma daquelas tardes abafadas de janeiro e Denílson era apenas uma criança.

27 dezembro 2015

Sorte

De vez em quando dona Samira aparecia para pedir café torrado na hora e moído mais fino, que só o Zé sabia preparar. Geralmente passava lá quando ia à catedral ortodoxa, era apaixonada por um padre há anos, parece que ele também gostava dela, amor platônico, só suspiros e olhares: a religião sempre estava em primeiro lugar. Samira era devota, participante na comunidade, de vez em quando lia a sorte na xícara de café para amigas que precisassem de conselhos, fazia uns pasteizinhos de massa de ricota e recheio de presunto que eram uma delícia.

Um dia Zé disse que queria aprender a fazer café árabe. Ela concordou, desde que ele tivesse os apetrechos certos, senão não ficava bom. Fariam o café para ler a sorte dele.

- O que é que eu tenho que comprar, dona Samira? Onde vou achar essas coisas?
- Você tem que ir à rua 25 de março. Pega o metrô aqui perto, desce na São Bento, pega a Ladeira Porto Geral, num instante você está lá. Pode ir no domingo, está tudo aberto. Xícara não precisa, essa branca que você tem serve. Açúcar também tem aqui e o pó que você prepara está muito bom, está ótimo! Água filtrada, melhor.
- Tudo bem dona Samira, que mais precisa?
- Um bule especial com um cabinho de madeira. Já viu? Lá na 25 tem, você compra um. Compra um maior, assim, se algum dia alguém pedir você faz café árabe aqui. Compra xicrinhas sem asa também, é bonito servir direito, numa bandeja redonda. Depois que você tiver tudo, eu passo aqui e a gente faz o café, está bem? Ah, não se esqueça de comprar cardamomo, são umas sementinhas que dão um sabor especial.

Estava ótimo! Zé comprou tudo, e dona Samira ensinou: cinco xícaras de café de água, duas colheres de chá de açúcar, cinco colheres de chá de café em pó e cardamomo. Ponha para ferver a água em fogo médio, acrescente o açúcar, o pó de café e mexa. Quando subir abaixe o fogo, mexa; deixe ferver de novo, tire do fogo e ferva mais uma vez. Cuidado para não derramar enquanto ferve. Aguarde uns instantes para o pó assentar, sirva sem encher demais a xícara.

Ficou delicioso. Quando terminou de beber, dona Samira cobriu a xícara com o pires e pediu para Zé segurar a xícara tampada com a mão direita e dar três voltas sentido anti-horário, depois desvirar e esperar escorrer. Esperou uns minutos e mostrou o desenho que a borra do café havia formado no fundo. Ficou olhando concentrada, depois falou:

-Vejo caminhos abertos para você, muito trabalho, dinheirinho entrando, está vendo as moedinhas aqui? Dinheiro entrando, pouquinho, mas tem. Olhe aqui no fundo, tem duas mulheres, um coração dividido ao meio. Tristeza, muita tristeza. Muitas pessoas na sua vida... Olha aqui que engraçado, tem uma criança. Você tem filho, Zé?

Dona Samira foi falando, descrevendo as figuras, apontando e Zé não conseguia ver nada. Achou que o cardamomo era um tipo de droga. Estava impressionado como a boa senhora adivinhava até o que ele estava pensando. No final, ela pediu para Zé colocar o dedo indicador no fundo, virar a xícara e pensar em algo que ele queria que acontecesse. Ele fez, pensou, limpou o dedão no avental e ficou esperando.

- O que você pediu vai acontecer com sucesso. Você vai conhecer umas pessoas que estão muito próximas daqui, mas vocês nunca se encontraram. Sua vida vai mudar. Para sempre! Gostou? Espero que sim. Faça o café várias vezes, até acertar o ponto. Qualquer dia desse eu venho aqui provar. Agora tenho que ir até a igreja.


E lá foi ela em seu passinho apertado, dando adeuzinho e sorrindo.

21 dezembro 2015

Responsa

Zé, estou grávida.
--Grávida. GRÁVIDA???
--É.
--Não pode ser. Não pode ser. A gente nunca...
--Foi naquele dia, lembra? A gente achou que dava? Não deu.
--E agora? O que a gente vai fazer?
--Nada. Eu quero o bebê. fui ao médico. Está tudo bem, não se preocupe, eu queria contar pra você porque estou feliz.
-- Como assim? Não estou entendendo. Eu não estou pronto ainda.
--Eu disse que vou ter o bebê, você não precisa me dar nada. Eu quero ter essa criança e ela será muito feliz. Eu quero muito.
--Preciso de tempo para pensar, depois tem a Dalva na parada, você sabe que eu estava com ela quando a gente andou saindo.
--Claro que eu sei. Nunca te cobrei nada. Quer saber?  Acho que ela tem mais a ver com você do que eu. Estou num emprego estável, dou conta, depois minha mãe sabe, liguei para ela e ela vai me ajudar. Faz tempo que não tem criança na família.
--Menina, que loucura! Você me pegou de surpresa. Estou besta, não sei o que dizer. Preciso pensar, me dá uns dias. O café está cheio tenho de voltar...
--Olha Zé, você é uma pessoa muito legal e eu estou feliz que seja o pai do meu filho, mas acho melhor a gente não se ver mais. Eu estou bem, nós vamos ficar muito bem. Fique tranquilo.
--Espera aí! Qual é? Você vem aqui, me dá um puta susto, me conta que eu vou ser pai e vai embora assim? Não está certo. Eu tenho responsabilidade. Olha só, vou dentro pegar um dinheiro para você. Você me espera? Hein? Fica aí, eu volto já.
--Está bem, eu espero.



Zé entrou no minúsculo depósito, pegou uma caixa de sapato e separou umas notas que estavam enroladas em um elástico. Quando ele voltou com dinheiro na mão ela não estava mais. Zé saiu pela rua gritando seu nome, mas ela havia desaparecido.

13 dezembro 2015

Desgraçada...

Ele perambulou a noite toda. Por fim, sentou-se na calçada encostado à porta de ferro e ficou esperando o café abrir. Estava acabado, puto de raiva, com ódio, remorso, tudo junto. Zé vinha andando e falando ao celular, passou pelo cara acabado e foi procurar a chave no bolso da calça. Abriu aporta de ferro e o fulano foi logo entrando e pedindo uma média. Que coisa! Era cedo ainda, Zé precisava ainda esquentar a máquina, organizar as xícaras. O homem não estava com pressa, podia esperar. Sentou-se. Um tempo depois, quando Zé trouxe a média e perguntou se queria um pão de queijo ele disse que não e foi logo falando o que havia acontecido na noite anterior.

Quando ele e a mulher (eram casados há 10 anos) voltaram do super mercado era quase meia-noite. Os dois, cansados, tiraram as compras do carro, colocaram tudo em cima da mesa da cozinha e, sem dizer uma palavra, foram acomodando os alimentos nos seus devidos lugares.

Ele segurava na mão um desajeitado vidro de maionese de um litro (que ela insistiu e fez questão de comprar), olhava desanimado para o interior da geladeira pensando onde iria acomodar aquele trambolho, quando ela falou:

- Acabou, Norberto. Quero me separar de você. Esse casamento é uma hipocrisia, não estamos juntosmuito tempo, é melhor cada um ir cuidar da sua própria vida antes que a gente sofra mais. Afinal a gente ainda não tem filhos. Não é isso que eu quero para mim, sabe? A gente ainda é jovem pode recomeçar, nossos interesses são muito diferentes e, quer saber? Acho que foi tudo um grande engano. Não aguento mais discutir a relação, não tem diálogo, só eu falo. Olha aqui, o problema não é você, sou eu, entende? Você é quase perfeito, amigo, carinhoso, independente, mas está faltando alguma coisa, sabe?

Não, ele não sabia. Segurando o vidro ele ficou. Parado, de boca aberta olhava para ela como se estivesse vendo um extraterrestre. E ela continuou com mil argumentos, clichês que ele não conseguia ouvir.

Estava em estado de choque. Ainda com o vidro na mão perguntou se havia outra pessoa. podia ser isso: alguém no pedaço e ele , feito um corno idiota. Ela negou, jurou pela mãe, disse que ele estava louco, que não era nada disso, que simplesmente o amor havia acabado. Que ela estava confusa, precisava ficar sozinha, dar um tempo.

- Desgraçada!!! - gritou ele atirando o vidro de maionese na parede, com toda a força que a raiva conseguiu juntar.
- Des-gra-ça-da!!!

E saiu batendo a porta dos fundos com tanta força que a porta da geladeira, que já estava apitando de tanto tempo aberta, também bateu. Ela ficou parada. Um tempo depois pegou um pano e começou a limpar os azulejos cheios de maionese.


        Quando ele voltou para casa na manhã do dia seguinte tudo estava na mais perfeita ordem. A cozinha impecável, os jornais dobrados, a cama feita e as roupas no lugar. Abriu a porta do armário dela para ver se ela havia levado as roupas. Não. Tudo estava na mais perfeita ordem, para variar.

06 dezembro 2015

Gente fina

Zé está de olho numa  velhinha que vem vindo devagar. Apoiada na bengala e carregando uma sacola de pano no braço, vem pelo lado de dentro da calçada, quase esbarrando nos muros, talvez para se sentir, de certa forma, apoiada. Porte altivo, bem arrumada e toda penteada, tem um rosto aristocrático. Apesar das rugas, e do excesso de maquiagem, ainda conserva belos traços. Parece uma baronesa. Passa em frente ao café e para. Sacudindo a bengala, chama o Zé e pergunta:
 - Você aí! Venha cá meu rapaz. Preciso de um café com leite bem clarinho e um copo de leite morno, à parte. Você poderia fazer a gentileza de me servir?
Claro que poderia. Fazendo uns salamaleques, com um cuidado exagerado, Zé ajuda a velhinha a se sentar e vai providenciar o pedido. Viu logo que era uma fina senhora.
Enquanto isso, a dama abre a sacola de pano, tira um pedaço de pão embrulhado em papel-toalha, uma faquinha de plástico e um gato. Coloca tudo em cima da mesa. Chama o Zé novamente, pede um pires e um pouquinho de manteiga.
Zé, que tinha alergia a gatos, fica apreensivo. Não achava nada bom um gato em cima de uma das mesas, poderia espantar a clientela, mas não abre a boca. Espirra feito louco e esfrega os olhos, que já estavam vermelhos. Leva tudo o que foi pedido, atencioso, mas invocado. Depois, se acalma, vai fazer outra coisa e não presta mais atenção na velhinha que passa manteiga no pão, despeja o leite no pires e fica por ali bastante tempo. De barriga cheia, o gato dorme ao sol, com a cabeça ligeiramente pendida da beirada da mesa.
Depois que a baronesa saiu, Zé limpou tudo muito bem com um pano com álcool. Quando lavou a calçada no fim do dia, jogou creolina pura e uns baldes bem cheios de água. Pelo jeito não adiantou porque ninguém mais sentou naquele lugar. Reclamavam de cheiro de xixi.


29 novembro 2015

Nuvem de fumaça

      Zé chegou para trabalhar desanimado. Fumou um cigarro na esquina, voltou para o café e começou a limpar as mesas sem vontade de nada.
Ainda não era hora de movimento, havia uma pessoa aqui outra ali e bem na última mesa, no meio de uma nuvem de fumaça, uma loira aguada e com olhar de peixe morto fumava... Pensativa. O cabelo amassado estava preso por uma faixa de cetim totalmente inapropriada, a maquiagem meio borrada e vencida, reluzia colorida demais para a luz da manhã. Para se animar, Zé deu uma conferida e achou a mulher sem graça, peituda, mas sem graça. Continuou colocando os guardanapos, o açúcar e o adoçante, foi ajeitando aqui e ali. De vez em quando, dava uma olhadinha de esguelha para a loira. Será que ela estava esperando alguém?
O café foi enchendo, as pessoas começam a fazer pedidos, a falar mais alto e o movimento da clientela animou nosso amigo, que entre um pedido e outro bebeu um gole conhaque direto da garrafa que mantinha bem escondida. Limpou a boca na manga da camisa e continuou de olho na loira sozinha, fumando. pelas tantas, entra um sujeito falando ao celular, vai direto para o fundo do café, puxa a cadeira com pressa e se senta em frente à loira que esmaga o cigarro e faz cara de nojo.

Zé, que havia visto tudo, procurou rodear a mesa para ver se ouvia alguma coisa, mas não conseguiu. O homem falou, falou e falou sem parar. A loira sorriu e soltou uma gargalhada. O homem levantou-se irritado, jogou sobre a mesa cinco notas de R$100,00 e saiu do mesmo jeito que entrou. A loira pediu a conta e quando Zé foi levar, ela, que estava de , arremessou os peitões contra o peito de Zé, deu-lhe um beijo cinematográfico e saiu.
Nunca mais apareceu no café.

22 novembro 2015

Aqui jazz


Fim de tarde. Zé gostava do frio, gostava de pensar que estava em algum país da Europa, que seu café era em Paris, tinha até colocado um poster da torre Eifell, meio rasgado nas beiradas, na parede ao lado do balcão. Sentia-se bem nos seus devaneios enquanto limpava as mesas.
Uma mulher madura se aproxima, sorri sincera e pede um café. Logo depois, quem ela estava esperando chega andando apressado e senta-se ao seu lado. Dava para notar que era bem mais jovem que ela. Terno sóbrio, gravata discreta, sapato de cromo alemão. Também pede um café. Curto, por favor.

- Você não mudou... -  diz ele.
- Dez anos? Ou mais? - diz ela, sem sequer ousar olhar nos olhos dele com medo de morrer envenenada.

Um abraço cerimonioso, quase infantil, mãos frias e suadas, coração marcando um compasso. Começam a atropelar os assuntos como se a última conversa tivesse sido ontem e as horas vão passando. Tudo passa. As afinidades ficam. Havia um querer bem. As memórias, fotografadas de ângulos diferentes, desfilavam entre eles como tiras de celuloide de um antigo roteiro.

Algumas horas antes…

Ela está pronta para sair e, como sempre, anda pela casa feito barata tonta, certificando-se de que não esqueceu de nada. Revira a bolsa, pega a chave de casa com uma mão e, com a outra, liga o celular. Mais uma olhadinha no espelho do lavabo e abre a porta para chamar o elevador. O telefone toca e uma voz familiar pergunta quem fala. Ela responde hesitante e ele se identifica. Silêncio.

Ela entra, deixa cair o corpo na poltrona, larga a bolsa no chão e continua a conversa com voz contida, disfarçando a emoção. O estômago arde, aperta e regurgita uma mágoa há muito ruminada. Dez anos e a certeza de que um dia isso iria acontecer.  Marcam um encontro para o final da tarde, será que foi uma boa ideia? Estava atrasada, pensaria a respeito a caminho do escritório.

Passa o dia sem nem um pingo de concentração fala ao telefone, responde e-mails, participa de uma longa reunião, olha no relógio, não quer almoçar. Toma água, desce até a calçada para fumar um cigarro, finge que trabalha mais um pouco e vai ao encontro de um fantasma, de alguém que ela duvidou que um dia tivesse existido. Aqui jazz um amor de adolescente.


Não sente o chão sob seus pés. Será que eu estou bem?

17 novembro 2015

Frequentadora assídua

Todos os dias, lá vinha ela, logo cedo antes de ir para a faculdade, depois voltava no meio da manhã na hora do intervalo, e mais uma vez antes de ir para casa. Parecia uma anoréxica, um fantasma. Zé até gostava dela, achava estranho porque pedia café duplo, forte, sem açúcar. Sempre segurando livros, colocando o cabelo para atrás da orelha e ajeitando os óculos, fungava. Não gostava de conversar, suas mãos tremiam ao segurar a xícara, se batesse um vento forte ela saía voando. Um dia, assim sem mais nem menos, comentou que a família não gostava dela, que eram uns idiotas e que se pudesse os mataria, um por um, lentamente. Mas que, pensando bem, não seria capaz de crimes perfeitos, daria muito trabalho se livrar dos corpos. Pensou em suicídio,  causaria mais impacto e eles se sentiriam culpados.

Contam que certa noite perambulava pela casa, feito assombração, pálida, descabelada, de camisolão de cambraia e pés no chão. Pupilas dilatadas, coração disparado por overdose de cafeína, não encontrava o sono, a agonia lhe corroía o peito.
Desceu as escadas no escuro sentindo a madeira velha dos degraus rangerem a seus pés. Parou no meio da sala e ficou olhando a luz da rua a entrar pelo janelão envidraçado e fazer listas no tapete. A noite tornava tudo mais belo, gostava do silêncio, daquele cheiro de dama da noite que vinha do jardim. Ficou ali, pensando. Olhou suas mãos, tocou seu rosto, cruzou os braços em torno de si mesma num abraço solitário, começou a chorar em silêncio para não acordar o resto da família. Família? Não.Estranhos sob o mesmo teto, uma gente esquisita que não fazia a menor ideia de quem ela era. Neuróticos, não perdiam a oportunidade de humilhá-la!
Malditos! Um dia ainda iria se vingar! Poria fogo na casa, envenenaria a comida, cuspiria no doce de abóbora. Mais uns dias e teria o prazer de riscar de ponta a ponta o carro novo do pai, picar a jaqueta de couro da mãe. Não. Picar não, não seria preciso: cortaria um pedacinho bem no meio das costas, derrubaria um vidro inteiro de esmalte importado na manga, ou quebraria o salto do Christian Louboutin legítimo. Poria um anúncio de garota de programa no jornal, com o celular e o e-mail da sua irmã. Publicaria na Internet aquela foto de seu irmão pelado que ela um dia descobriu no meio dos livros, enquanto fuçava seu quarto às escondidas.
Sentia-se poderosa enquanto sonhava com sua doce vingança. Foi até a cozinha e voltou com uma vela acesa, um bloco e uma caneta bic. Sentou-se na beirada da cadeira da sala de jantar e começou a escrever. A vela foi se consumindo, a chama aumentando e ela, lá... absorta, escrevendo... Gritou quando sentiu algo macio passando sobre seus pés e subindo pelas suas pernas brancas que nunca tinham sido depiladas.
- Um rato! Um rato! Um rato! - gritava correndo em círculos enquanto os malditos desciam a escada correndo para ver o que estava acontecendo.
O irmão conseguiu agarrar o hamster que havia fugido da gaiola, a irmã reclamou bastante e subiu a escada, os pais ficaram em choque, aparvalhados. Nem foram atrás da menina quando ela saiu correndo pela rua.  

Um dia, um casal passou em frente ao café. O homem perguntou pela frequentadora assídua enquanto a mulher torcia um lenço que tinha nas mãos.  Zé teve de dizer que ela nunca mais voltou.