A casa onde cresci era um sobrado geminado, pequeno e perfeito. Minha mãe sabia como ninguém cuidar daquela casinha branca. Depois de um quintal muito pequeno, havia quartinho um de despejo. Piso hidráulico com mosaicos, predominando tons de amarelo e marrom, uma espécie de guarda-roupa vagabundo de pinho pintado de cinza, onde coisas velhas se acumulavam. " Um dia a gente pode precisar..." Dentro do quarto havia um ralo, uma coisa estranha, com tampa de cimento, uma alça de ferro enferrujada para puxar. Volta e meia era preciso ser limpo com creolina, eu ficava curiosa para ver o que ia sair de lá...pedaços de vassoura de piaçaba, cabelo, fios de linha, poeira acumulada, enfim, o lixo do quintal. Um nojo hoje; interessante naquele tempo.
Um dia, pedi à minha mãe o quartinho só para mim - seria meu escritório, com a velha máquina de escrever e meu material de artesanato. Ela concordou. Passou cal nas paredes, no armário, na mesa e na estante. Os móveis, que já eram horríveis, continuavam horríveis e pintados de branco. Comprou tecido, fez cortinas azuis, de um paninho vagabundo, mas vistoso, ajeitou tudo para mim. Que eu cuidasse e usasse bem, afinal, era uma parte da casa. Lá dentro, o nirvana, o céu e eu não saída de lá. No meu pequeno refúgio, procurava expressar quem eu achava que era em forma arte. Via um futuro promissor e cheio de afeto, como estava acostumada.
Mudamos de lá, mudamos de vida, de cidade, de país e a casinha ficou. Às vezes eu sonhava com ela, lembrava de pequenos detalhes, como os cantos do rodapé, as vigas de madeira no teto, " estilo mexicano", dizia minha mãe. Via as árvores antigas da rua serem arrancadas, as raízes expostas, olhava de perto aqueles nós e queria protegê-los. Sentia o cheiro da terra úmida e cavava buracos procurando minhocas.
Quando voltamos fui até lá: o sobradinho parecia menor ainda. Tudo estava intacto, cheio de poeira. Meu paraíso particular tinha sobrevivido ao tempo, mas a porta estava empenada e podre. Abri tudo, abri a janela, as cortinas rasgaram. As latas de tinta e os pincéis secos, pilhas de jornal amarelado, trapos encardidos e secos, e o armário lá. Em princípio, tive medo de abrir. O que teria lá dentro? Nada. Lixo. Madeiras velhas, tralha de cozinha, inutilidades. Ninguém precisou delas. Fiz uma fogueira no meio do quintal, fui jogando aquilo tudo, via o fogo queimando aquele monte de coisas que não faziam mais o menor sentido.
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25 junho 2013
28 agosto 2011
Roteiro
Atravesso a avenida Brigadeiro Luiz Antonio domingo cedo. Ninguém, nenhum carro, nenhum cachorro latindo, ambulância uivando ou fila de ônibus agonizando. Coloco o pé na calçada, depois na rua, tento calcular as camadas de asfalto que estão por cima dos paralelepípedos, os mesmos que viravam barras de sabão e lambiam os pneus dos carros subindo a ladeira em dias de garoa. Sim, São Paulo era conhecida por sua garoa fina e gelada. Pude sentí-la.
Todos os dias, exatamente ao meio-dia, meu pai subia a avenida no seu Aero Willis prata, carro brasileiro com motorzão de jipe e lataria pesada, tentando ser “de luxo”. Ele dirigia até a rua Boa Vista 176, entrada lateral do Banco do Estado de São Paulo, onde foi funcionário por 38 anos. Daí, minha mãe assumia a direção e me deixava na praça da República, no Instituto de Educação no Caetano de Campos. Dos 5 aos 17 anos, aquele prédio neoclássico projetado por Ramos de Azevedo, foi minha segunda casa e era considerado um centro de excelência educacional. A praça era arborizada, havia lagos com patinhos e peixes, e até um bicho preguiça. Do outro lado, uma Kopenhagen. Eu fugia da escola para comer nha benta e batatinhas de marzipan.
Nas férias, eu e minha mãe (de luvas brancas de crochê e salto alto) íamos fazer compras na cidade e tomar chá no Mappin, em frente ao Teatro Municipal. Depois, atravessávamos o Viaduto do Chá para comprar sapatos na rua Quintino Bocaiúva e, na volta, tomávamos o ôninus Paraíso no Vale do Anhangabaú. Vínhamos sentadas.
No ginásio, eu e minhas amigas íamos fazer pesquisa na Biblioteca Mario de Andrade andando pela rua São Luiz, passando por butiques, pela agência da Luftansa e admirando as entradas clássicas dos edifícios elegantes. Nos tempos da escola normal, íamos comer èclairs na doceria Dulca na rua do Arouche, e admirar as vitrines de sapatos. Imaginávamos como seria maravilhoso um dia sair para jantar com o namorado no restaurante O Gato que Ri. Cabulávamos aula para ir ao cine Metrópolis onde o porteiro fingia acreditar que nossas carteirinhas de estudante não eram falsificadas e depois comer esfiha no Almanara da rua Basílio da Gama.
Ainda na garoa, no meio da Brigadeiro, quando me dou conta estou olhando para o céu encoberto e rindo de mim mesma. Embalada pelas lembranças, decido pegar a alameda Sarutaiá e logo vejo cães, os atuais seres dominantes do bairro, eu acho, com roupas coloridas, acessórios de cabelo, capa de chuva e sapatos (quatro). Arrastam seus escravos que recolhem, em saquinhos plásticos, suas fezes ainda quentes.
Cruzo a alameda Campinas, a rua Pamplona e atravesso a Nove de Julho. Lembro do túnel antes da construção do MASP. Chego à rua Augusta, hoje feia e decadente, caminho até onde era o cine Paulista, das matinês de domingo, do cachorro quente depois do filme, ou sorvete de creme com hot fudge nuts. Das garotas de mini-saia e dos rapazes de calça Lee. Na Oscar Freire, paro em frente à lanchonete Frevo. Depois, subo a Augusta até a Paulista, entro no Conjunto Nacional. Onde está hoje a livraria Cultura, era o espetacular Cine Astor. Lembro da minha melhor amiga, quando voltávamos para casa a pé.
Continuo andando, sentindo o frio no rosto, só que não vou até a rua Sampaio Viana onde eu morei tantos anos, nem à praça Oswaldo Cruz, ou o que restou dela, sem o chorão, sem a Sears e com o desprestigiado índio fora de lugar. Viro à direita na Brigadeiro.
Em contagem de chronos, foi mais ou menos uma hora e meia. Em contagem de kairós... bem kairós é o tempo oportuno, que não se sente passar. Foram décadas, uma vida inteira, ou apenas alguns segundos.
03 maio 2011
Homenagem aos Trevisan que amam Gardel
Por una cabeza de un noble potrillo que justo en la raya afloja al llegar, y que al regresar parece decir: No olvidéis, hermano, vos sabés, no hay que jugar.
Por una cabeza, metejón de un día de aquella coqueta y risueña mujer,
que al jurar sonriendo el amor que está mintiendo, quema en una hoguera
todo mi querer.
Por una cabeza, todas las locuras. Su boca que besa, borra la tristeza, calma la amargura. Por una cabeza, si ella me olvida qué importa perderme mil veces la vida, para qué vivir. Cuántos desengaños, por una cabeza. Yo jugué mil veces, no vuelvo a insistir.
Pero si un mirar me hiere al pasar, sus labios de fuego otra vez quiero besar.
Basta de carreras, se acabó la timba. ¡Un final reñido ya no vuelvo a ver!
Pero si algún pingo llega a ser fija el domingo, yo me juego entero.
¡Qué le voy a hacer..!
Por una cabeza, metejón de un día de aquella coqueta y risueña mujer,
que al jurar sonriendo el amor que está mintiendo, quema en una hoguera
todo mi querer.
Por una cabeza, todas las locuras. Su boca que besa, borra la tristeza, calma la amargura. Por una cabeza, si ella me olvida qué importa perderme mil veces la vida, para qué vivir. Cuántos desengaños, por una cabeza. Yo jugué mil veces, no vuelvo a insistir.
Pero si un mirar me hiere al pasar, sus labios de fuego otra vez quiero besar.
Basta de carreras, se acabó la timba. ¡Un final reñido ya no vuelvo a ver!
Pero si algún pingo llega a ser fija el domingo, yo me juego entero.
¡Qué le voy a hacer..!
18 junho 2008
Memórias zoológicas ou Como eu gostava de insetos
Eu tinha uma boa relação com insetos quando criança, coisa que com o tempo infelizmente mudou. Talvez por ser filha única e por ter crescido no meio de adultos, que nem sempre dispunham de tempo ou paciência para me entreter, costumava ficar horas no minúsculo jardim, pesquisando aquele universo de seres interessantes. Gostava também de sentir o cheiro e gosto das plantas, até que um dia pus na boca uma folha venenosa ( pelo menos era o que diziam) e tive uma reação alérgica tão inesquecível quanto o gosto amargo da planta.
No verão, costumávamos visitar uma amiga de minha mãe que morava em uma casa grande, rodeada por um jardim enorme. Minha diversão era ouvir o canto das cigarras e sair à procura das que haviam estourado de tanto cantar. Eu as apanhava nas árvores e as arrumava em fila como um exército de monstrinhos de plástico, transparentes e sequinhos. Quando eu ia à piscina do clube, adorava ver as libélulas tocando de leve a superfície da água e ouvir a criançada gritando: Olha um lava-bunda!
Cavoucar a terra e encontrar minhocas corcoveantes, centopéias, tatus-bola era uma diversão; ou colocar um pouco de açúcar em uma caixinha e esperar as formigas virem, além de jogar sal nas lesmas e vê-las derreter. Eu detestava mariposas, tinha medo de louva-deuses, que se pareciam muito com os agapantos depois que perdiam suas flores, não gostava muito quando as tresloucadas borboletinhas pousavam no meu vestido.
Certa vez, meu vizinho convidou a criançada da rua para dar uma volta de carro, era um Pontiac dos anos 50 de cor creme, com a parte de cima da capota na cor bordô, desbotada. Entramos todos animados e eu sentei perto da janela, feliz da vida. Quando o vizinho olhou para trás para dar marcha ré, lascou-me um tapa no rosto que eu quase perdi a fala. Como se não bastasse, uma agonizante mariposa gigante se debatia no meu colo e tudo o que eu pude fazer foi gritar. Não gosto nem de lembrar.
Meu pai era bancário, trabalhava na sessão de contas correntes das 18:00 horas até a meia noite, quando eu e minha mãe íamos buscá-lo de carro. Nesse meio tempo, eu ficava estudando, fazendo lição e minha mãe costurando, fazendo tricô ou jogando paciência. Certa noite, quase na hora de sairmos, acabou a luz e ficamos no escuro por um tempo, até que ela resolveu sair e ligar os faróis do carro. Quando eu estava saindo, senti algo bater no meu rosto, me debati assustada, me enrosquei na cortina, mas consegui sair e fechar a porta de vidro. Quando eu entro no carro, esbaforida, vejo balançando na cortina uma mariposa, bem grande e escura.
Anos mais tarde, em uma sessão de psicanálise daquelas freudianas, havia uma maldita daquelas pousada acima da porta que eu só fui notar quando deitei no divã. Adulta e bem reprimida, não pude fazer o escândalo dos tempos de criança, o que me custou mais algumas sessões falando a respeito. Ainda tenho medo de voadores das trevas, como as tais mariposas, os morcegos e as baratas.
Acho que vou fazer uma fezinha na borboleta 13. Quem sabe?
No verão, costumávamos visitar uma amiga de minha mãe que morava em uma casa grande, rodeada por um jardim enorme. Minha diversão era ouvir o canto das cigarras e sair à procura das que haviam estourado de tanto cantar. Eu as apanhava nas árvores e as arrumava em fila como um exército de monstrinhos de plástico, transparentes e sequinhos. Quando eu ia à piscina do clube, adorava ver as libélulas tocando de leve a superfície da água e ouvir a criançada gritando: Olha um lava-bunda!
Cavoucar a terra e encontrar minhocas corcoveantes, centopéias, tatus-bola era uma diversão; ou colocar um pouco de açúcar em uma caixinha e esperar as formigas virem, além de jogar sal nas lesmas e vê-las derreter. Eu detestava mariposas, tinha medo de louva-deuses, que se pareciam muito com os agapantos depois que perdiam suas flores, não gostava muito quando as tresloucadas borboletinhas pousavam no meu vestido.
Certa vez, meu vizinho convidou a criançada da rua para dar uma volta de carro, era um Pontiac dos anos 50 de cor creme, com a parte de cima da capota na cor bordô, desbotada. Entramos todos animados e eu sentei perto da janela, feliz da vida. Quando o vizinho olhou para trás para dar marcha ré, lascou-me um tapa no rosto que eu quase perdi a fala. Como se não bastasse, uma agonizante mariposa gigante se debatia no meu colo e tudo o que eu pude fazer foi gritar. Não gosto nem de lembrar.
Meu pai era bancário, trabalhava na sessão de contas correntes das 18:00 horas até a meia noite, quando eu e minha mãe íamos buscá-lo de carro. Nesse meio tempo, eu ficava estudando, fazendo lição e minha mãe costurando, fazendo tricô ou jogando paciência. Certa noite, quase na hora de sairmos, acabou a luz e ficamos no escuro por um tempo, até que ela resolveu sair e ligar os faróis do carro. Quando eu estava saindo, senti algo bater no meu rosto, me debati assustada, me enrosquei na cortina, mas consegui sair e fechar a porta de vidro. Quando eu entro no carro, esbaforida, vejo balançando na cortina uma mariposa, bem grande e escura.
Anos mais tarde, em uma sessão de psicanálise daquelas freudianas, havia uma maldita daquelas pousada acima da porta que eu só fui notar quando deitei no divã. Adulta e bem reprimida, não pude fazer o escândalo dos tempos de criança, o que me custou mais algumas sessões falando a respeito. Ainda tenho medo de voadores das trevas, como as tais mariposas, os morcegos e as baratas.
Acho que vou fazer uma fezinha na borboleta 13. Quem sabe?
11 junho 2008
Memórias evocadas pelos sentidos
Sentir, sonhar sensibilizar. Sentir o senso suscetível. Sonhar sentindo a maciez das pétalas nos sentidos, nos sentimentos, nas sensações que levam a uma outra dimensão do sentir.
A veneziana, que a pouco estava aberta, escancarada, se fecha para trazer a intimidade da sombra ao quarto. Dentro, a cama antiga e os lençóis de linho convidam à preguiça os corpos nus e quentes do sol lá de fora.
Com a sensação da rosa branca que percorre seu corpo ela se entrega ao momento do sentir e sabe, com cada célula, que sexo é sentir sozinha a sensação do ser. Brinca com a rosa que percorre suavemente a exuberância de suas formas sinuosas, enquanto abre sua alma para a luxúria.
O espelho do guarda roupa, que é o reflexo da imagem da entrega, ajuda a compor a cena. O sol quente da tarde de verão insiste em penetrar pelas frestas da veneziana enquanto os corpos se entrelaçam, lutam, estremecem. O quarto, o lençol, o chão, as paredes e o teto listram listras de claro-escuro.
A rosa, que era botão, começa a se abrir, de certo pelos corpos que ardem e rolam de desejo e verão, só de sentir a rosa a tocar os sentidos. Ela arranca a rosa, que agora é uma intrometida, e a arremessa ao chão. Cai a rosa sem sentir a sensação de ter um permear de corpos e suores, salivas e sais. Os odores, os fluídos e os sabores, os cheiros dos amores se misturam e o sol insiste em invadir aquela solidão de sentir a dois.
Sozinha no chão, a rosa deixa que suas pétalas se abram e se despreguem da haste uma a uma, lentamente, murchando de pura inveja de não poder sentir o que os corpos molhados sentem nos lençóis de linho da tarde morna.
Morre a rosa sem sentir o que fez com que a outra, suspirando e gemendo, sentisse.
Sandra Schamas
A veneziana, que a pouco estava aberta, escancarada, se fecha para trazer a intimidade da sombra ao quarto. Dentro, a cama antiga e os lençóis de linho convidam à preguiça os corpos nus e quentes do sol lá de fora.
Com a sensação da rosa branca que percorre seu corpo ela se entrega ao momento do sentir e sabe, com cada célula, que sexo é sentir sozinha a sensação do ser. Brinca com a rosa que percorre suavemente a exuberância de suas formas sinuosas, enquanto abre sua alma para a luxúria.
O espelho do guarda roupa, que é o reflexo da imagem da entrega, ajuda a compor a cena. O sol quente da tarde de verão insiste em penetrar pelas frestas da veneziana enquanto os corpos se entrelaçam, lutam, estremecem. O quarto, o lençol, o chão, as paredes e o teto listram listras de claro-escuro.
A rosa, que era botão, começa a se abrir, de certo pelos corpos que ardem e rolam de desejo e verão, só de sentir a rosa a tocar os sentidos. Ela arranca a rosa, que agora é uma intrometida, e a arremessa ao chão. Cai a rosa sem sentir a sensação de ter um permear de corpos e suores, salivas e sais. Os odores, os fluídos e os sabores, os cheiros dos amores se misturam e o sol insiste em invadir aquela solidão de sentir a dois.
Sozinha no chão, a rosa deixa que suas pétalas se abram e se despreguem da haste uma a uma, lentamente, murchando de pura inveja de não poder sentir o que os corpos molhados sentem nos lençóis de linho da tarde morna.
Morre a rosa sem sentir o que fez com que a outra, suspirando e gemendo, sentisse.
Sandra Schamas
07 junho 2008
Memórias de Família
Receitas
Uma boa lembrança é a visão de minha mãe, toda arrumada, subindo a escada com uma bandeja e um prato de bananas cozidas, com canela e açúcar. Com seu ligeiro sotaque dizia: “Te fiz banana cozida para levantar as forças. Banana tem potássio, faz bem. Come tudo, vai, pra ficar boa.” E aquele aroma delicioso de canela invadia o quarto, enquanto eu comia a tal da banana, quentinha e doce. Essa receita me fez bem enquanto minha mãe viveu e cuidou de mim. Ainda faço banana cozida para cuidar de alguém que quero bem.
Tenho ainda uma sensação de ver minha avó, mexendo a polenta no fogo e dizendo para eu não chegar perto do fogão. Às vezes espirrava um pingo amarelo, fervendo e eu pulava para trás. Pensar na carne moída com molho de tomate caindo sobre a polenta e o parmesão ralado na hora ainda dá água na boca.
Aprendi com minha mãe um tipo de risoto, feito com sobra de arroz, para comer nos dias de tristeza ou cansaço. Coloca-se um pouco de leite na panela, dissolvido em um pouquinho de maizena, para engrossar levemente. Acrescenta-se sal, uma pitada de pimenta do reino, uma pitada de nós moscada. Quando ferver, acrescentam-se as sobras do arroz, mussarela picada, parmesão ralado. Come-se bem quente, com mais parmesão por cima. Faz bem para a alma.
Tudo que sei da cozinha árabe, aprendi com minha tia Loris, irmã de meu pai. Eram raros os momentos em que ela não estava na cozinha, pois, desde pequena, foi o que mais ela teve de fazer. Depois de casada, com cinco filhos e marido exigente, cozinhar era sua rotina. Eu me encantava ao vê-la preparar um panelão de charutinhos de folha uva, todos arrumadinhos em camadas. O cheiro de especiarias na cozinha era delicioso. Eu adorava roubar um ou outro charutinho, quando ela não estava olhando. À mesa, enquanto eu saboreava seus quitutes, ela dizia “Coll habib, coll... sahténn”, ou seja “come querida, come…saúde”.
Cheguei a aprender fazer folha de uva, mas fiz uma única vez, dá muito trabalho. Em compensação sei fazer quibe, esfiha, arroz marroquino, coalhada fresca e seca (atualmente compro pronta, porque é mais fácil) e tabule. O que preparo melhor é o arroz com lentilhas, mjadra. Dizia meu pai que era o mais saboroso, melhor do que o preparado por sua querida irmã. Eu sempre tive orgulho disso.
A comida árabe é ritualística, tudo dá muito trabalho e exige um tempero especial. Para fazer o arroz com lentilhas separa-se uma xícara de lentilhas e meia xícara de arroz. Coloca-se a lentilha para cozinhar e quando estiver mais ou menos cozida coloca-se o arroz junto, na mesma panela. Enquanto isso, corta-se três cebolas grandes em fatias bem fininhas. Em uma frigideira grande, coloca-se azeite de oliva e frita-se a cebola até ficar bem corada. Coloca-se uma colher desse azeite com cebola frita na panela em que se está cozinhando o arroz e a lentilha, para dar sabor. Acrescenta-se o sal. È bom não colocar muita água no cozimento, porque o arroz e a lentilha devem ficar sequinhos. Deixa-se descansar um pouco na panela, depois se despeja em um prato, com a cebola frita e o óleo por cima. Pode ser comido quente ou frio.
Cozinhar é um ato de amor!
Uma boa lembrança é a visão de minha mãe, toda arrumada, subindo a escada com uma bandeja e um prato de bananas cozidas, com canela e açúcar. Com seu ligeiro sotaque dizia: “Te fiz banana cozida para levantar as forças. Banana tem potássio, faz bem. Come tudo, vai, pra ficar boa.” E aquele aroma delicioso de canela invadia o quarto, enquanto eu comia a tal da banana, quentinha e doce. Essa receita me fez bem enquanto minha mãe viveu e cuidou de mim. Ainda faço banana cozida para cuidar de alguém que quero bem.
Tenho ainda uma sensação de ver minha avó, mexendo a polenta no fogo e dizendo para eu não chegar perto do fogão. Às vezes espirrava um pingo amarelo, fervendo e eu pulava para trás. Pensar na carne moída com molho de tomate caindo sobre a polenta e o parmesão ralado na hora ainda dá água na boca.
Aprendi com minha mãe um tipo de risoto, feito com sobra de arroz, para comer nos dias de tristeza ou cansaço. Coloca-se um pouco de leite na panela, dissolvido em um pouquinho de maizena, para engrossar levemente. Acrescenta-se sal, uma pitada de pimenta do reino, uma pitada de nós moscada. Quando ferver, acrescentam-se as sobras do arroz, mussarela picada, parmesão ralado. Come-se bem quente, com mais parmesão por cima. Faz bem para a alma.
Tudo que sei da cozinha árabe, aprendi com minha tia Loris, irmã de meu pai. Eram raros os momentos em que ela não estava na cozinha, pois, desde pequena, foi o que mais ela teve de fazer. Depois de casada, com cinco filhos e marido exigente, cozinhar era sua rotina. Eu me encantava ao vê-la preparar um panelão de charutinhos de folha uva, todos arrumadinhos em camadas. O cheiro de especiarias na cozinha era delicioso. Eu adorava roubar um ou outro charutinho, quando ela não estava olhando. À mesa, enquanto eu saboreava seus quitutes, ela dizia “Coll habib, coll... sahténn”, ou seja “come querida, come…saúde”.
Cheguei a aprender fazer folha de uva, mas fiz uma única vez, dá muito trabalho. Em compensação sei fazer quibe, esfiha, arroz marroquino, coalhada fresca e seca (atualmente compro pronta, porque é mais fácil) e tabule. O que preparo melhor é o arroz com lentilhas, mjadra. Dizia meu pai que era o mais saboroso, melhor do que o preparado por sua querida irmã. Eu sempre tive orgulho disso.
A comida árabe é ritualística, tudo dá muito trabalho e exige um tempero especial. Para fazer o arroz com lentilhas separa-se uma xícara de lentilhas e meia xícara de arroz. Coloca-se a lentilha para cozinhar e quando estiver mais ou menos cozida coloca-se o arroz junto, na mesma panela. Enquanto isso, corta-se três cebolas grandes em fatias bem fininhas. Em uma frigideira grande, coloca-se azeite de oliva e frita-se a cebola até ficar bem corada. Coloca-se uma colher desse azeite com cebola frita na panela em que se está cozinhando o arroz e a lentilha, para dar sabor. Acrescenta-se o sal. È bom não colocar muita água no cozimento, porque o arroz e a lentilha devem ficar sequinhos. Deixa-se descansar um pouco na panela, depois se despeja em um prato, com a cebola frita e o óleo por cima. Pode ser comido quente ou frio.
Cozinhar é um ato de amor!
Memórias da Praça da Sé
Marcamos um encontro na Praça da Sé, no Marco Zero, ao meio dia. Chegamos pontualmente a tempo de ouvir os sinos. Meu coração, aos pulos, atrapalhou minha intenção de querer parecer tranquila.
Fingimos que tudo bem, somos bons amigos, afinal. Almoçamos no Pátio do Colégio, conversamos. No silêncio entre os assuntos, olhos nos olhos, emoção. depois voltamos ao Marco Zero e cada um seguiu sua vida.
Sinto saudades do tempo em que fingíamos ser apenas amigos.
Fingimos que tudo bem, somos bons amigos, afinal. Almoçamos no Pátio do Colégio, conversamos. No silêncio entre os assuntos, olhos nos olhos, emoção. depois voltamos ao Marco Zero e cada um seguiu sua vida.
Sinto saudades do tempo em que fingíamos ser apenas amigos.
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