20 agosto 2014

DESONRA - J.M. COETZEE- CIA DAS LETRAS 2000


John Maxwell Coetzee nasceu na Cidade do Cabo no dia 9 de fevereiro de 1940 onde estudou até completar bacharelado em língua inglesa e em matemática. De 1962 a 1965 morou na Ingleterra trabalhando com informática e preparando uma tese sobre o novelista inglês Ford Madox Ford. Em 1968, Coetzee completou  doutoramento em linguística das línguas germânicas na Universidade do Texas, em Austin. Entre 1968 e 1971 foi professor de inglês na Universidade do Estado de Nova Iorque, em Buffalo. Depois de lhe ser negado o direito de residência permanente nos EUA, regressou à África do Sul onde ensinou na Universidade da Cidade do Cabo, até 2000. Em 2002, ele emigrou para a Austrália e ensina na Universidade de Adelaide. Coetzee recebeu vários prêmios antes do Nobel em 2003 e o Booker Prize por duas vezes: primeiro por Life & Times of Michael K em 1983 e por Disgrace, em 1999.
Numa impecável tradução de José Rubens Siqueira, o livro Desonra - Disgrace  - foi sucesso de público e crítica, publicado em mais de vinte países. A tradução do título pode ser considerada apropriada, apesar das controvérsias. Em inglês disgrace tem um sentido de perda de honra, de respeito e de reputação; em português, desgraça tem um sentido de perda da graça, da fortuna, de miséria num sentido material, portanto, nesse caso, a solução encontrada está adequada ao tema que rege a trama.
Desonra conta a história de David Lurie, um aguado professor de literatura que não sente nenhuma motivação para dar suas aulas e passa isso aos alunos com seu modo indiferente e distante.  Interessante que o autor descreve uma das aulas maçantes, logo no início do livro, e  o verbo ‘usurpar’ aparece em destaque por primeira vez. Depois,  torna a aparecer sutilmente no decorrer da narrativa identificando as intenções dos personagens em suas relações. Obcecado por Byron e seu grupo, passa bastante tempo na biblioteca fazendo pesquisas para um trabalho que está desenvolvendo. Talvez essa identificação com o poeta britânico esteja no desencanto com a vida e na tendência depressiva do personagem.  
O professor se sente muito confortável em visitar uma prostituta uma vez por semana, como se a exclusividade e a periodicidade lhe dessem segurança, porém não hesita em persegui-la, como um predador, quando não mais a tem.
O que ainda lhe dá emoção na pacata vida acadêmica é a busca da libido. Vive perscrutando o campus em busca de alguma imagem feminina e frágil que lhe desperte o desejo.  Então, como raposa velha, sai à caça implacável até conseguir o que quer. Ele acha que se apaixona pelo belo, e que não pode viver sem essa sensação.
Assim acontece com Melanie Isaacs, uma de suas alunas aparentemente também desmotivada com sua vida universitária e com um namorado inexpressivo. Ela sede ao assédio do professor, talvez pela insistência dele ou por, de certa forma, se sentir lisonjeada pelo interesse do mestre. Talvez pressionada pelo namorado, ou pelos pais, muda de atitude e o processa.
Lurie é exonerado e vai para o lado leste da África do Sul ficar com a filha Lucy, que mora em uma fazenda. A filha tem uma relação distante e nem o chama de pai, o chama pelo nome. Diz a ele que pode ficar por quanto tempo quiser e pelo motivo que tiver.
Tendo como cenário árido essa terra seca e pobre, as conseqüências sociopolíticas depois do Appartaid de 1994 se manifestam na relação ainda estremecida na luta pela terra entre brancos e negros e ainda entre as diferenças culturais entre as raças.
Uma noite, três negros invadem a fazenda e Lucy é violentada. O pai, inconformado e cheio de culpa por não ter feito nada para impedir o estupro,  discute  inúmeras vezes com a filha por ela não quer ir à polícia e nem querer que saibam o que aconteceu.
O vizinho  Petrus é um estranho personagem que representa essa nova Àfrica do Sul. Sorrateiro e aproveitador, que se faz de desentendido para ir, aos poucos, usurpando as terras de Lucy. Lucy procura se adaptar e buscar a melhor maneira de viver naquelas terras ás quais sente apego e que não pretende deixar nunca.
Para ocupar o tempo, David é voluntário numa clínica veterinária gerenciada por um casal, onde cães são sacrificados. O abatido professor acaba tendo relações esporádicas com a mulher, que foge completamente aos padrões físicos aos quais ele se sente atraído. O sexo é cru, acontece na clínica, num cenário mórbido.
O livro é instigante, chocante, e ao mesmo tempo humano, com todas as fraquezas e incertezas dos personagens masculinos, com exceção de Petrus que sabe exatamente onde quer chegar. Os personagens femininos são mais marcantes: Lucy, que se impõe perante o pai e assume sua sexualidade, suas ideias políticas e morais;  a dona da clínica, que decide o destino dos miseráveis cães e assume sua libido;  a mulher de Petrus, aparentemente submissa, mas que tem convicção de sua cultura e do que é melhor para a família. Melanie, no entanto, é  representação de um caráter fraco e influenciável de menina branca, universitária bem nascida em ambiente  elitista e racista.
Tudo no livro é muito duro, bizarro e desolador. Ao escrever sobre a obra, senti uma tristeza ainda maior do que quando a li, como se tivesse de passar novamente por grandes sofrimentos, por uma angústia existencial e conflitante.
Poligamia, estupro, posse de terras, protecionismo e vários tipos de preconceito regem a intrigante história.  Coetzee escreve de maneira direta, enxuta, faz cortes abuptos e perfeitos. Não enfeita, não enrola. Tece a trama com conhecimento de causa, de modo tão leve que o leitor não sente que está lendo e sim vivendo o que o autor quer que o leitor viva.
Coetzee tem algo de Phillip Roth na maneira direta de escrever, mas, principalmente por fundir autor, leitor e personagens.  O primeiro, mais frio e depressivo, o segundo mais emotivo e passional, ambos mergulhadores na alma humana, pescadores dos sentimentos mais profundos e obscuros. O leitor é capturado, abduzido, sem escapatória começa a se sentir parte da história
Apesar de entender que o personagem do professor fala várias línguas, portanto o fato se justifica, fiquei bastante irritada com as palavras estrangeiras, não pude identificar todos os idiomas, o que achei pernóstico. Acredito que a intenção de Coetzee fosse demonstrar a diversidade cultural do ambiente, mesmo assim me incomodou. A idade do protagonista, que se diz com cinqüenta e dois anos, me pareceu inverossímil. David Lurie tem pensamentos e atitudes de homem mais velho, mais próximo da morte.
A capa do livro da edição cedida pela Cia das Letras é inexpressiva. Não havia percebido que a palavra desonra estava no projeto gráfico, achei que era apenas um desenho geométrico.
Para concluir, Desonra é um livro imperdível, maduro, pesado e ao mesmo tempo sensacional.


2 comentários:

Emerson Moino Martins disse...

Belo trabalho Sandra, adorei esse livro

Emerson Moino Martins disse...
Este comentário foi removido pelo autor.